O vocabulário das artes cênicas — do palco à plateia, com Molière de bônus (B1-B2)
— Marie-Christine: Bia, você viu Molière ontem à noite no Théâtre de la Ville?
— Bia: Vi! Mas eu não sabia como dizer… eu estava lá em cima, bem no alto, longe…
— Marie-Christine: No poulailler, minha cara. É o último balcão, o mais barato.
— Bia: Ah! E quando todo mundo bate palma no final, como se chama isso?
— Marie-Christine: Os rappels. E a cortina vermelha que cai se chama… a cortina, simplesmente.
— Bia: Tem realmente muita palavra técnica num teatro!
Esse vocabulário, indispensável para aproveitar plenamente as artes cênicas na França, merece que a gente se detenha nele.

Ir às artes cênicas na França — teatro, ópera, dança, concerto, cabaré — é entrar em outra língua. Não só a da peça, viu, mas todo o vocabulário técnico do lugar: o palco, os bastidores, a plateia, o balcão, o intervalo, as chamadas ao palco… Este guia B1-B2 te dá tudo isso, com um trecho de Molière de bônus, um exercício e o gabarito. Enfim, o suficiente para brilhar em sociedade.
1. A sala, onde a gente se senta
Em francês, distingue-se cuidadosamente a sala (o espaço do público) e o palco (o espaço do espetáculo). A sala tem várias zonas, geralmente com preços diferentes, e francamente, é aí que a coisa complica.
| Termo | Sentido | Uso |
|---|---|---|
| le parterre | térreo da sala | Nous avons des places au parterre. |
| l'orchestre (m.) | as primeiras fileiras da plateia | Meilleures places → prix les plus élevés. |
| le balcon | 1º andar acima da plateia | Les balcons ont une vue plongeante. |
| la mezzanine | pequeno balcão bem baixo | (Frequentemente o 2º nível) |
| la corbeille | balcão em meio-círculo bem perto do palco | (Lugares concorridos na Ópera) |
| le poulailler / paradis | último nível, lá em cima | (O mais barato, o mais alto. Popular.) |
| la loge | pequeno compartimento privado com 4-6 lugares | « Réserver une loge » — geralmente chique. |
| le fauteuil | assento individual | « Un fauteuil d'orchestre » = lugar premium. |
| le strapontin | assento dobrável no corredor | (Barato, menos confortável.) |
Armadilha lusófona nº 1: plateia em português brasileiro = « le public » OU « le parterre » dependendo do contexto. Em francês, essas duas noções são distintas, e isso é importante:
- « Le public a applaudi » → a audiência, as pessoas.
- « Les places au parterre » → a zona no térreo.
Aliás, uma pequena digressão: a palavra « parterre » vem literalmente de « par terre » (no chão), porque no século XVII não tinha assento ali, as pessoas ficavam de pé. Bom, agora tem poltronas, viu, mas o nome ficou.
2. O palco, onde o espetáculo acontece

| Termo | Sentido |
|---|---|
| la scène | o espaço de atuação, visível pelo público |
| le plateau | a superfície plana do palco (sinônimo técnico) |
| le rideau | grande tecido vermelho que abre e fecha o espetáculo |
| lever le rideau | (começar a peça) |
| le rideau tombe | (fim de um ato ou de um espetáculo) |
| les coulisses | os espaços escondidos à esquerda e à direita do palco |
| la fosse d'orchestre | o espaço rebaixado onde toca a orquestra |
| les décors | o conjunto do cenário |
| le fond de scène / la toile de fond | o plano de fundo pintado |
| les projecteurs | as luzes que iluminam o palco |
| la régie | a cabine onde o técnico controla som e luz |
| la sortie de scène | o momento em que um ator sai de cena |
| entrer en scène | aparecer diante do público |
Expressão figurada: « Il est entré en scène dans le débat » = ele entrou na discussão. Prática, essa aí.
3. O desenrolar; da abertura à chamada final
| Termo | Sentido |
|---|---|
| la représentation | uma sessão de espetáculo |
| la première | a toda primeira sessão (evento mundano) |
| la générale | o ensaio final diante de um público restrito |
| l'acte (m.) | grande parte de uma peça (geralmente 3 ou 5) |
| la scène (dentro de um ato) | subdivisão em que os personagens mudam |
| l'entracte (m.) | pausa no meio do espetáculo (15-20 min) |
| le rappel | os aplausos que fazem os atores voltarem para saudar |
| les rappels | (plural) várias voltas para saudar |
| saluer | fazer reverência diante do público no final |
| la standing ovation | aplausos de pé, muito raros na França |
⚠️ Atenção lusófona: ovação em português brasileiro = « l'ovation » em francês. Só que — e é aí que fica interessante — os franceses aplaudem EDUCADAMENTE e raramente de pé. Uma standing ovation na França é um acontecimento, tipo uma vez a cada dez anos. Na Itália ou nos EUA, é quase automático. Diferença cultural, então.
4. A equipe do teatro
| Termo | Sentido |
|---|---|
| le / la comédien(ne) | o ator/a atriz de teatro (não de cinema) |
| le / la metteur en scène (m. e f. idênticos) | quem dirige a encenação |
| le dramaturge | o autor/a autora da peça |
| le / la régisseur(se) | técnico(a) que conduz a apresentação |
| le / la machiniste | operário(a) que manipula os cenários |
| la doublure | o ator/a atriz que substitui um titular doente |
| l'ouvreur / l'ouvreuse | a pessoa que recebe e acomoda os espectadores |
| le / la souffleur(se) | nos grandes teatros, quem sopra o texto esquecido a partir de um alçapão (em vias de desaparecer) |
Curiosidade francesa: « l'ouvreuse » é tradicionalmente uma mulher, de terninho preto e lanterna pequena, que te guia até sua poltrona e a quem se dá uma gorjeta (1-2 €). É uma tradição em vias de desaparecer, mas que ainda persiste na Opéra Garnier e no Théâtre du Châtelet. Ainda assim, alguns turistas não conhecem o costume e esquecem — o que gera olhares gelados, é bem verdade.
5. Molière, o inventor do teatro francês moderno
Jean-Baptiste Poquelin (conhecido como Molière, 1622-1673) é o pai do teatro clássico francês. Comédias, sátiras sociais, crítica aos falsos devotos, aos médicos charlatães, aos burgueses que querem virar nobres… Suas peças mais encenadas ainda hoje — e, francamente, elas continuam atuais:
- Le Tartuffe (1664) — um falso devoto manipula uma família.
- Dom Juan (1665) — um libertino sedutor desafia Deus.
- Le Misanthrope (1666) — um homem honesto demais para sua época.
- L'Avare (1668) — Harpagon ama mais o dinheiro do que os filhos.
- Le Bourgeois gentilhomme (1670) — Monsieur Jourdain, burguês rico, quer virar nobre e se ridiculariza.
- Les Femmes savantes (1672) — sátira da erudição pretensiosa.
- Le Malade imaginaire (1673) — sua última peça.
Le Malade imaginaire, trecho e contexto (B1-B2)
A história: Argan é um homem rico, com saúde de ferro, mas convencido de estar gravemente doente. Vive cercado de médicos que lhe prescrevem lavagens intestinais, sangrias e chás — bom, digamos que eles o depenam com bastante dedicação. Sua esposa Béline espera pacientemente pela herança. Sua filha Angélique quer se casar com Cléante, um bom rapaz. Argan, por sua vez, quer casá-la com Thomas Diafoirus, filho de médico, para ter um médico em casa. Lógico, não é?
A criada Toinette, personagem central, vai desmascarar tudo. Ela até se disfarça de médico para zombar dos de verdade: é uma das passagens mais engraçadas da peça.
Trecho, Ato I, cena 5 (Argan e Toinette, adaptado e simplificado para nível B1-B2):
ARGAN: Estou doente. Vou morrer. Ninguém me entende.>
TOINETTE: Senhor, o senhor não está doente. O senhor tem médicos demais ao redor, só isso. Não há remédio melhor do que um pouco de bom senso.>
ARGAN: Como? Você ousa me contradizer, você, uma criada?>
TOINETTE: Ouso, senhor, porque eu gosto do senhor. Um amigo de verdade fala a verdade. Um mau amigo deixa você beber seus chás e morrer na sua cama.
Vocabulário do trecho:
- un lavement — clister, purgação medicinal do século XVII (comum na época)
- une saignée — retirar sangue do paciente (prática comum até o século XIX)
- une tisane — infusão medicinal
- un héritage — o dinheiro deixado aos filhos após a morte dos pais
- une servante — uma empregada doméstica
- contredire — dizer o contrário
- le bon sens — a lógica simples
A história real por trás da peça
Molière morreu em cena — ou quase. Em 17 de fevereiro de 1673, ele representava o papel-título de Le Malade imaginaire na 4ª apresentação. Ele estava realmente doente (tuberculose). No meio da cena, teve uma convulsão. Mas terminou a apresentação, porque, bem, o show tem que continuar —, voltou para casa na rue de Richelieu e morreu poucas horas depois.
Ironia trágica: o ator que interpretava um falso doente morreu de uma doença verdadeira. É um dos mitos mais contados do teatro francês, e com razão. A Comédie-Française, fundada sete anos depois, ainda hoje é apelidada de « la Maison de Molière » (a Casa de Molière).
Aliás — uma pequena curiosidade — na época, os atores não podiam receber os últimos sacramentos da Igreja, considerados « pecadores públicos ». Molière foi enterrado quase à noite, discretamente, num canto do cemitério. Bom, agora ele repousa no Père-Lachaise, então tudo bem.
6. Onde ver teatro na França?
- La Comédie-Française, Palais Royal, 1º distrito. Repertório clássico (Molière, Racine, Corneille).
- L'Odéon-Théâtre de l'Europe — 6º distrito, teatro contemporâneo de autor.
- Le Théâtre national de la Colline — 20º distrito, criação contemporânea.
- Le Théâtre du Rond-Point — 8º distrito, autores vivos.
- Le Théâtre du Châtelet — musicais e ópera.
- No interior: Théâtre National de Strasbourg, TNP Lyon, Théâtre National de Nice, La Criée em Marselha…
Preços — a partir de 5-10 € no poulailler na Comédie-Française, 30-50 € na plateia, 80-120 € nas grandes salas privadas. Às segundas-feiras, muitos teatros oferecem preços 30% mais baratos. Boa pedida, então.
7. Exercícios
Exercício 1 — Complete com a palavra certa.
(Opções: parterre · rideau · coulisses · entracte · comédienne · rappel · fauteuil · poulailler)
- No fim do ato 2, o _______ cai. Temos 15 minutos de pausa: é o _______.
- Reservei uma _______ na _______. Vamos estar bem posicionados, primeira fileira.
- Ele é estudante, sempre pega lugares no _______ por 8 €.
- Depois do espetáculo, houve três _______: os espectadores estavam de pé.
- Essa _______ interpreta o papel principal há 200 apresentações.
- Os atores se maquiam nos _______ pouco antes de entrar em cena.
Exercício 2 — Verdadeiro ou falso?
- Na Comédie-Française, encenam-se principalmente peças contemporâneas.
- O poulailler fica embaixo da sala, perto do palco.
- Um « rappel » = os aplausos que fazem os atores voltarem.
- Molière morreu em Londres, em turnê.
- Le Malade imaginaire é uma tragédia de Racine.
- Uma « ouvreuse » guia os espectadores até o lugar deles.
Exercício 3 — Traduza para o francês.
- A cortina se abriu e Argan entrou em cena.
- Compramos ingressos na plateia, terceira fila.
- Nunca vi tantos aplausos: teve três chamadas ao palco.
- A atriz esqueceu o texto no meio da cena.
- Amanhã tem sessão às 20 h, tem entreato de 15 minutos.
Gabarito
Exercício 1 —
- le rideau tombe · l'entracte.
- un fauteuil au parterre.
- au poulailler à 8 €.
- trois rappels.
- Cette comédienne.
- dans les coulisses.
Exercício 2 —
- FALSO — repertório clássico (Molière, Racine, Corneille).
- FALSO — o poulailler fica lá em cima, último nível.
- VERDADEIRO.
- FALSO — morreu em Paris, em casa na rue de Richelieu, em 1673.
- FALSO — é uma comédia de Molière (1673).
- VERDADEIRO.
Exercício 3 —
- Le rideau s'est levé/ouvert et Argan est entré en scène.
- Nous avons acheté des billets au parterre, troisième rangée.
- Je n'ai jamais vu autant d'applaudissements : il y a eu trois rappels (au public).
- L'actrice/comédienne a oublié son texte au milieu de la scène.
- Demain il y a une représentation à 20 h, avec un entracte de 15 minutes.
O que é preciso lembrar
- A sala ≠ o palco — dois universos distintos, dois vocabulários. E nunca confunda.
- Le parterre = o térreo · le poulailler = o último andar. Na França, a plateia é CARA, o poulailler é BARATO — lógica social implacável.
- L'entracte = o intervalo. Les rappels = os aplausos finais.
- Molière = comédia, sátira, língua francesa viva. Sua última peça, Le Malade imaginaire, é uma obra-prima acessível em B1-B2.
- La Comédie-Française = « a Casa de Molière ». Peças clássicas a partir de 5-10 €.
- Armadilha lusófona: plateia ≠ apenas parterre — é sobretudo o público. Em francês, diz-se le public para as pessoas, le parterre para a zona no chão.
Bom espetáculo. E lembre-se de aplaudir: na França, aplaude-se educadamente mas raramente se levanta — exceto por um verdadeiro deslumbramento artístico. Enfim, é cultural.
*— Lionel Philippe · também conhecido como « M. Bonjour-Merci »***

