Um passeio pelo francês dos Camarões — tchoko, mange-mille, comment?
« Nos Camarões, ninguém apenas fala francês — a língua é celebrada, torcida, feita cantar. »
Uma África em miniatura
Os Camarões são o país mais diverso da África: 250 línguas locais, duas línguas oficiais (francês no sul, inglês no noroeste), uma geografia que vai do deserto às florestas equatoriais. Seu francês — falado por 80% da população — é um cocktail único: ritmo africano, expressões emprestadas do inglês, humor o tempo todo. É um francês de pé, brincalhão, generoso.
O vocabulário para guardar
| Camarões | França | Tradução PT |
|---|---|---|
| le tchoko | pourboire, dessous-de-table | a gorjeta / propina |
| un mange-mille | policier corrompu | um policial corrupto |
| le petit | le junior, l'assistant | o menino, o auxiliar |
| c'est how ? | ça va comment ? | como está? / e aí? |
| on va faire comment ? | on fait quoi ? (résignation) | fazer o quê? |
| un maquis | petit restaurant populaire | um boteco |
| les bonjours | mes salutations | um alô, um abraço |
| un complet | un ensemble tissu identique | um conjunto de mesma estampa |
Pequena curiosidade
A palavra mange-mille é talvez a mais reveladora do gênio camaronês: é um policial que aceita um pequeno tchoko (gorjeta) para te deixar passar — mil francos CFA, mais ou menos 1,50 €. A expressão é tão precisa que caiu no rap camaronês (Stanley Enow, Krys M) e até nos jornais. Nomear algo com humor já é começar a combatê-lo.
Outra pérola: « On va faire comment ? ». Não é uma pergunta de verdade — é uma filosofia de vida. Diante de um problema (falta de luz, engarrafamento, chuva), o camaronês levanta as mãos e diz « On va faire comment ? ». É uma resignação alegre, um fatalismo otimista. Os brasileiros vão entender na hora: é o primo africano do « fazer o quê? » carioca.
Por que isso importa
Os Camarões deram à francofonia Mongo Beti, Ferdinand Oyono, Calixthe Beyala, Léonora Miano. É o país de Manu Dibango (« Soul Makossa »), da música bikutsi, do café do mundo. Ouvir um camaronês falar francês é ouvir a África se recusando a ser triste. E através dele, entender que o francês do futuro não vai ser escrito em Paris — ele já está sendo escrito em Douala, em Iaundé, em Abidjan, em Dakar.
Quer ir mais fundo? Ouça « Soul Makossa » de Manu Dibango (a música que inspirou Michael Jackson) ou leia « Le Vieux Nègre et la médaille » de Ferdinand Oyono. É francês, e é literatura de primeira.

