Deixa eu te contar a última. Você vai rir.
Foi numa terça à noite, umas 20h. Clima calmo no bistrô, três clientes
habituais no balcão, um casal na mesa do fundo, o rádio tocando
Aznavour baixinho. Enfim, uma noite normal na rue Saint-Maur.
A porta se abre. Entra um grupo de quatro brasileiros, três
homens, uma mulher, quarentões, felizes, todos rindo à toa, cheios de energia,
muito barulhentos, muito felizes. Dá pra ver que estão saindo de um
happy hour bem regado ali por perto — entram rindo, batendo palmas,
a mulher se apoia no ombro de um amigo chorando de rir, e um dos caras
ainda segura uma garrafinha de cachaça na mão como um troféu.
Um deles, um cara alto de camisa florida tropical, se aproxima do
balcão com um sorrisão e me diz, em francês com o sotaque carioca mais
delicioso do mundo :
> — Bonsoir Monsieur ! Uma bela FEIJOADA para quatro, por favor ! E
CACHAÇA, hein ! Bom — a gente ainda tem, mas pra começar !
O silêncio
Três segundos de silêncio. Os habitués viram a cabeça. O casal do
fundo para de conversar. Eu, atrás do meu balcão, olho para esse
senhor que espera claramente uma resposta entusiasmada, como se eu
fosse tirar um caldeirão de ferro fumegante de um armário.
Olho pro cardápio pendurado na parede : ovos com maionese, terrine de
campagne, cassoulet, tartare, tarte tatin. Olho pro senhor da camisa
florida. Olho pros outros três atrás dele, que já estão se sentando
entre risos, super à vontade, como se estivessem em casa.
Monsieur, eu digo bem gentilmente, acho que você está muito perto, mas não exatamente no lugar certo.
A explicação
Ele se vira, olha o salão, olha o cardápio, olha meus três habitués
que já estão rindo por baixo. Depois se vira pros amigos, com a
garrafa ainda na mão :
> — Ô gente… é bistrot mesmo. Não é o Braseiro.
E aí, a mulher do grupo explode de rir. Uma risada enorme, contagiosa,
que sai do estômago e enche todo o bistrô. Os outros seguem. Eu também.
Os habitués também. O casal do fundo também.
Acontece que o Braseiro, um restaurante brasileiro famoso do 11º
arrondissement que serve mesmo feijoada e cachaça — estava a trinta
metros, a porta logo depois da minha. Só que a minha era mais
visível, com sua fachada vermelha, seu toldo, suas mesas na calçada.
Fácil de se enganar quando já se está bem alegre.
O que a gente fez
Sabe o que aconteceu ? Eles ficaram.
« Já estamos instalados, me disse o senhor da camisa florida. Não
vamos incomodar monsieur ! O senhor tem vinho ? Vamos pegar o que o
senhor recomendar. E guarda a cachaça pra depois, viu. um shotzinho
de digestivo vai muito bem com sua tarte tatin. »
Aí eu tirei um beaujolais natural do meu amigo caviste, uma tábua de
comté-saucisson, uma salada de beterraba e um cassoulet pra dividir
(a única escolha francesa deles naquela noite, me disseram : iam
« corrigir a rota na sobremesa »). E de fato, no final da refeição,
brindamos todos com a cachaça deles, gole por gole, em copinhos, com
a tarte tatin ainda morna.
No final, quando saíram, a mulher me deu dois beijos e disse, com
aquele sotaque delicioso :
> — Monsieur Lulu, esse é nosso novo bistrô preferido. A gente volta
sexta. E dessa vez trazemos uma VERDADEIRA garrafa de cachaça
artesanal, aquela que a gente traz do Brasil na mala.
O que eu tiro disso
Primeiro, nunca rir na cara de um cliente que erra a porta,
sobretudo se ele saiu de um bom aperitivo antes. Explicar com doçura.
Na maior parte do tempo, ele fica. E paga a conta sorrindo.
Segundo, a melhor feijoada de Paris talvez esteja no Braseiro (11º,
rue Faidherbe). Não vou concorrer com eles. Cada um no seu ofício. meu é o bistrô francês ; o deles é o brasileiro.
Enfim, e essa é minha favorita : quando a vida te oferece vizinhos
que riem alto e procuram cachaça, você abre bem a porta. Porque o
bistrô nunca foi outra coisa senão isso : um lugar onde as pessoas que
erram o endereço acabam encontrando alguma coisa boa.
Saúde !
— Lulu

