Crônica — os brasileiros que procuravam uma feijoada (e ficaram pelo cassoulet)
— Lulu: Boa noite, sentem-se! Hoje tenho um cassoulet caseiro que vai esquentar vocês.
— Bia: Cassoulet? Nós estávamos procurando uma feijoada! Com arroz, carne de porco, feijão preto…
— Lulu: Ah, minha linda, aqui é Toulouse no seu prato, não Rio! Feijão branco, confit de pato, linguiça… Mas prometo, você vai adorar.
— Bia: Pato no feijão? Vocês, franceses, são loucos!
— Lulu: Espera provar antes de julgar, hein. E a cachaça, guarda essa — aqui é beaujolais ou nada.
Esse choque culinário, todo brasileiro na França já viveu algum dia. Quando a saudade da feijoada encontra a realidade do cassoulet.

Bom, deixa eu contar essa última. Vocês vão rir.
Era uma terça-feira à noite, devia ser umas 20h. Ambiente calmo no bistrô, três clientes fiéis no balcão, um casal na mesa do fundo, o rádio tocando Aznavour baixinho. Resumindo, uma noite normal na rue Saint-Maur.
A porta se abre. Entra um grupo de quatro brasileiros — três homens, uma mulher, na faixa dos quarenta, felizes, rindo à toa, com um ar muito animado, muito bagunceiros, muito contentes. Estavam claramente saindo de um happy hour bem regado ali perto — entram rindo, batendo palmas, a mulher se apoia no ombro de um amigo chorando de rir, e um dos rapazes ainda segura uma garrafinha de cachaça na mão como um troféu.
Um deles, um sujeito alto de camisa floral tropical, se aproxima do balcão com um sorriso enorme e me diz, em francês com o sotaque carioca mais delicioso do mundo:
— Boa noite, senhor! Uma linda FEIJOADA para quatro, por favor! E CACHAÇA, hein! Bom, ainda temos um pouco, mas pra começar!
O silêncio
Três segundos de silêncio. Os fiéis viram a cabeça. O casal do fundo para de conversar. Eu, atrás do balcão, olho para esse senhor que claramente espera uma resposta animada, como se eu fosse tirar uma marmita de ferro fumegante de algum armário.
Olho o cardápio pendurado na parede: ovos com maionese, terrine de campagne, cassoulet, tartare, tarte tatin. Olho o senhor de camisa floral. Olho os outros três atrás dele, que já começam a se sentar rindo, super à vontade, como se estivessem em casa.
Senhor, digo bem gentilmente, acho que vocês estão bem próximos, mas não exatamente no lugar certo.
A explicação

Ele se vira, olha o salão, olha o cardápio, olha meus três clientes fiéis que já riem discretamente. Depois se vira para os amigos, garrafa ainda na mão:
— Ô gente… é bistrot mesmo. Não é o Braseiro.
E aí, a mulher do grupo explode de rir. Uma risada enorme, contagiante, que sai da barriga e enche todo o bistrô. Os outros seguem. Eu também. Os fiéis também. O casal do fundo também.
Acontece que o Braseiro, um restaurante brasileiro renomado do 11º arrondissement que realmente serve feijoada e cachaça, estava a trinta metros, a porta logo depois da minha. Só que a minha era mais visível, com a fachada vermelha, o toldo, as mesas na calçada. Fácil de confundir quando já se está numa boa alegria.
O que fizemos
Sabe o quê? Eles ficaram.
«Já estamos instalados, me disse o senhor de camisa floral. Não vamos incomodar o senhor! Tem vinho? A gente aceita o que você recomendar. E guarda a cachaça pra depois, hein, um shot de digestivo vai muito bem com sua tarte tatin.»
Então tirei um beaujolais nature do meu amigo do empório, uma tábua de comté com salame, uma salada de beterraba, e um cassoulet para compartilhar (a única escolha francesa deles naquela noite, me disseram — iam «corrigir o rumo na sobremesa»). E de fato, no final da refeição, todos brindamos com a cachaça deles, gole por gole, em taças pequenas, com a tarte tatin ainda morna.
No final, quando foram saindo, a mulher me deu um beijo no rosto e disse, com aquele mesmo sotaque delicioso:
— Senhor Lulu, esse é nosso novo bistrô favorito. Voltamos na sexta. E dessa vez trazemos uma garrafa de cachaça artesanal DE VERDADE, aquela que a gente traz do Brasil na valise.
O que eu tiro disso
Primeiro, nunca rir na cara de um cliente que erra a porta, principalmente se ele veio de um bom happy hour antes. Explicar com gentileza. Na maioria das vezes, ele fica. E paga a conta com o sorriso no rosto.
Depois, a melhor feijoada de Paris talvez seja no Braseiro (11º arrondissement, rue Faidherbe). Não vou fazer concorrência com eles. Cada um no seu ramo: eu, o bistrô francês; eles, o brasileiro.
Por fim — e esse é meu preferido: quando a vida te apresenta vizinhos que riem alto e procuram cachaça, você abre a porta bem aberta. Porque o bistrô nunca foi outra coisa: um lugar onde as pessoas que erram o endereço acabam encontrando algo bom.
Um brinde a vocês.
— Lulu

