Confronto Camembert vs Catupiry — dois queijos que fazem país

Dois queijos, dois jeitos de comer. O camembert na França, o Catupiry
no Brasil. Um se corta, o outro se passa. Um tem cheiro forte, o outro derrete.
Um é AOP (denominação de origem protegida) desde 1983, o outro faz pizza
desde 1911. Dois queijos que fazem país.
O confronto
Camembert de Normandia AOP (França, 1791–…) — Marie Harel, fazenda do
Beaumoncel, Vale d'Auge. Leite cru de vaca normanda, casca florida branca,
miolo cremoso. Quatro semanas de maturação. Come-se com a mão, com
uma faca, sobre um pedaço de baguete, nunca gelado — tirado da geladeira
uma hora antes. Cheira um pouco a fazenda, e esse é o sinal de que está bom.
Catupiry (Brasil, 1911–…) — Mário Silvestre, um imigrante italiano de
Poços de Caldas (Minas Gerais). Catupiry vem do tupi e significa
"excelente". Requeijão cremoso guardado num potinho de madeira e depois
de plástico. Come-se de colher, passado no pão francês,
derretido numa esfiha, ou principalmente por cima de uma pizza brasileira —
a famosa frango com catupiry, que até os franceses estão começando a
entender.
O confronto? Nenhum vence. Eles nem jogam na mesma categoria:
o camembert é um queijo maturado, o Catupiry é um queijo fresco.
Mas os dois dizem a mesma coisa sobre seu país: que o queijo
não é um luxo, é um hábito do dia a dia.
As mesas que combinam com cada um
Do lado francês

A tábua de queijos francesa é um ritual: três ou quatro queijos, do mais
suave ao mais forte, cortados no sentido do raio, nunca pela ponta. Ao lado,
a baguete (nunca pão de forma), manteiga com sal, algumas nozes, um
pouco de uva. Tudo acompanhado de uma taça de tinto: um Borgonha
ou um Bordeaux leve. É o momento mais longo da refeição.
Do lado brasileiro

O Brasil não faz tábua: faz combinações. Uma
pizza frango com catupiry na sexta à noite. Uma esfiha de queijo na
saída da escola. Um pão de queijo saindo do forno acompanhado de um
potinho de Catupiry para passar. Tudo regado a Guaraná Antarctica
bem gelado. É rápido, é bom, é popular.
O que esses queijos nos contam
O queijo é um excelente marcador sociológico. A França protege
seus camemberts de leite cru como outros protegem seus monumentos — a
ponto de virar debate político (o caso Lactalis vs o camembert
industrial de 2018). O Brasil, por sua vez, inventou uma cultura de
pizza-esfiha-salgado que faz da cidade de São Paulo a segunda maior
consumidora de pizzas do mundo, atrás só de Nova York.
Duas formas de segurar o queijo na mão. Duas formas de amar.
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