O francês não é uma língua. São dezenas de franceses. Em Paris, em Abidjan, em Bruxelas, em Montreal, em Marselha, no Rio (sim, no Rio, os profs de FLE falam todos os dias), pronuncia-se, modula-se, canta-se diferente. Hoje, passamos o microfone aos nossos personagens do blog. Cada um vai te explicar sua « cor » de sotaque.
Kouamé — o francês de Abidjan (Costa do Marfim)
« Aqui a gente não diz « un travail », diz « un boulot », às vezes « un taf ». Colamos uma palavra de nouchi numa frase francesa sem avisar. Nosso « r » rola um pouco, nosso ritmo é musical. Esticamos as terminações. quase uma canção. »
Para escutar em casa : RFI Afrique + artistas marfinenses (Magic System, Josey).
Marie-Christine, o francês « padrão » de Paris
« Sou do 6º arrondissement. Meu francês é neutro, o dos telejornais. Articulo bem as sílabas, faço poucas ligações informais. É o francês que a maioria dos métodos de FLE ensina. Mas atenção : eu represento um francês entre outros, não o único « certo ». »
Para escutar : France Info, jornal das 20 h da France 2.
Bia, o francês de uma carioca em imersão
« Sou brasileira. Quando falo francês, me sobra um sopro português, uma vogal um pouco mais aberta, um « ch » que escorrega para « x »… e ainda canto a frase como no Brasil. Não é defeito, é minha assinatura vocal. Assuma a sua. »
Dica da Bia : grave-se, escute-se, sorria. Seu sotaque te entrega no bom sentido : ele conta de onde você vem.
🎤 Lulu, o francês didático da prof de FLE
« Eu desacelero de propósito. Articulo cada sílaba para meus alunos ouvirem a diferença entre dessus e dessous, entre poisson e poison. Não é meu sotaque natural. é meu sotaque de ensino. Em casa, com meus amigos, falo muito mais rápido ! »
Nono : o francês « do sul » de Marselha
« Sou do Sul. A gente diz « peuchère », diz « fada », arrasta as sílabas finais : « paing », « viing », « moitieuu ». Abrimos as vogais nasais : um prazer para os ouvidos. E sobretudo : falamos com as mãos, como italianos e brasileiros. »
Para escutar : canal oficial do OM, Radio Marseille.
Vincent, o francês de Bruxelas
« Bom dia. Sou belga. Meu sotaque é muito leve. um francês nem sempre percebe. Mas tem coisas : digo « septante » (70) e « nonante » (90), nunca soixante-dix nem quatre-vingt-dix. Digo « une fois » no fim da frase (« Viens ici, une fois. »). E meu « r » é um pouco mais suave que em Paris. »
Dica : se passar uma semana em Bruxelas, vai amar.
Camila — o francês de uma lusófona iniciante
« Como a Bia, sou do Brasil. Mas eu estou começando. Meu sotaque é forte, eu sei. Ainda confundo o « u » francês com o « ou », e meu « r » gutural rola demais. Isso me deixa tímida, mas a Lulu me diz : « Seu sotaque não é vergonha. É o trajeto visível do seu aprendizado. » Então continuo. »
Zaïf : o francês sem sotaque
« Dizem que eu não tenho sotaque. É porque cresci entre vários países e adotei um francês « internacional », apagado, muito neutro. É melhor ? Não necessariamente. Um sotaque conta uma história. O meu conta a de alguém que se mudou muito. »
O que fica
- Não existe UM francês certo. Existem muitos.
- Seu sotaque lusófono não é defeito — é sua assinatura. Você pode aperfeiçoar, mas não deve renegar.
- Escute vários francófonos : Paris, Abidjan, Montreal, Bruxelas, Marselha. Seu ouvido vai treinar.
- O único « sotaque » que atrapalha é o que não se entende. Isso se treina. O resto é música.
Qual sotaque francófono você prefere ? Diz nos comentários. e se você quiser um episódio em áudio com as 8 vozes dos nossos personagens, também é só falar.

