Um século de riso francês: de Bourvil a Blanche Gardin
« Um povo que não ri mais é um povo que tem medo. » Essa frase resume a história do riso na França. Pois rir nunca é inocente. É um indicador cultural. Os franceses de ontem não riam das mesmas coisas que hoje. Aqui está um século de caretas e esquetes.
Época 1 · Bourvil × De Funès — o riso popular do pós-guerra (1950-1975)
Nos anos 50, a França se recupera. Ela quer esquecer a guerra. Dois homens encarnam esse riso simples e universal: Bourvil e Louis de Funès.
Bourvil (1917-1970), cujo nome verdadeiro é André Raimbourg, é o camponês ingênuo. É o cara bonzinho que sempre se deixa enganar. Ele tem cabelos castanhos e um sorriso tímido. Ele também canta: « Salade de fruits », « La Tactique du gendarme ». Rimos com ele, nunca contra ele.
Louis de Funès (1914-1983) é o oposto: o chefinho nervoso. Ele está sempre com raiva, sempre apressado. Suas caretas se tornaram universais. Ainda o imitam hoje no Brasil, na China, na Rússia. De Funès não fala: ele explode.
A dupla mais célebre deles? « La Grande Vadrouille » (1966, dirigido por Gérard Oury). A história de um pintor (Bourvil) e de um maestro (De Funès) que escondem aviadores ingleses durante a Ocupação alemã. O filme faz 17 milhões de entradas no cinema. É um recorde nunca batido na França. Toda a família ri junta.

« La Grande Vadrouille » (Gérard Oury, 1966) — Bourvil (à esquerda) e Louis de Funès (à direita), a dupla popular por excelência.
Depois De Funès continua sozinho. Em 1973, ele filma « Les Aventures de Rabbi Jacob » com Gérard Oury. É um filme sobre o racismo e a tolerância. Mas antes de tudo, é um filme que faz rir. De Funès interpreta um rabino ortodoxo (líder religioso judeu) que dança numa fábrica de chicletes. É um minuto de cinema inesquecível. A mensagem é clara: rimos com todo mundo.
Época 2 · Coluche & o café-teatro — o riso que critica (1975-1990)
Chega Coluche (Michel Colucci, 1944-1986). Ele usa um macacão listrado amarelo e azul. Ele tem cabelos curtos e uma voz forte. Coluche não quer apenas fazer rir: ele quer criticar a sociedade. Seus esquetes — « Le Schmilblick », « C'est l'histoire d'un mec » — misturam absurdo e crítica social. Ele aparece na TV, no rádio, nas salas de café-teatro parisienses.
Em 1981, ele anuncia sua candidatura à eleição presidencial. Slogan: « Coluche presidente! » As pesquisas lhe dão de 10 a 16% de intenções de voto. Ele acaba desistindo sob pressão política. Mas a mensagem foi passada: o riso se tornou uma arma.
Em 1985, ele cria os Restos du Cœur, uma associação que distribui refeições gratuitas aos pobres. Slogan: « J'ai une petite idée comme ça… » Coluche morre num acidente de moto em 1986. Os Restos du Cœur existem até hoje. Eles serviram mais de um bilhão de refeições.

« Les Aventures de Rabbi Jacob » (Gérard Oury, 1973) — De Funès disfarçado de rabino dançando num telhado de Nova York.
Em torno de Coluche, há todo um movimento: o café-teatro. São pequenas salas parisienses (Le Splendid, Le Café de la Gare) onde se apresenta diante de 50 pessoas. Michel Boujenah, Pierre Palmade, Muriel Robin começam lá. Em 1979, a trupe do Splendid cria « Le Père Noël est une ordure », uma peça cult. Ela se torna um filme em 1982. Rimos da solidão, da pobreza, da França pobre — aquela que nunca era mostrada com Bourvil.
Época 3 · Foresti, Gad Elmaleh — o one-man-show (1995-2015)
Os anos 2000 veem a explosão do one-man-show: um(a) comediante sozinho(a) no palco, durante 1h30, com apenas um microfone. Saem os esquetes de TV de três minutos. Entra a narrativa longa, a autobiografia, a observação do cotidiano.
Florence Foresti (nascida em 1973) encarna essa geração. Suas personagens femininas — Anne-Sophie, a mãe cansada, Brigitte a burguesa — são observadas com precisão. Rimos de reconhecimento. « Motherfucker » (2013), seu último espetáculo antes de uma pausa, faz um milhão de entradas no cinema. Algo inédito para uma comediante na França.
Gad Elmaleh (nascido em 1971, franco-marroquino) se torna uma estrela com « Décalages » (1997) e « La Vie normale » (2001). Ele conta sobre sua família judia marroquina, as refeições de Shabbat, os mal-entendidos culturais. Em 2015, ele parte para os Estados Unidos. Ele aprende inglês para fazer stand-up em Nova York. Aposta louca. Aposta ganha.
Jamel Debbouze (nascido em 1975) abre o Jamel Comedy Club em 2006. É uma sala dedicada aos jovens comediantes dos subúrbios (bairros periféricos pobres). Thomas Ngijol, Fabrice Éboué, Nora Hamzawi, Yassine Belattar começam lá. O riso se torna uma questão de identidade e de geração.
Época 4 · O stand-up — o riso que corta (2015-hoje)
A partir de 2015, o stand-up explode na França. Ele é inspirado no modelo americano, mas com um toque francês: mais literário, mais político, às vezes mais duro.
Blanche Gardin (nascida em 1977) encarna essa virada. Seus espetáculos — « Je parle toute seule » (2017), « Bonne nuit Blanche » (2018) — são autobiográficos e brutais. Ela fala de sexo, de depressão, de maternidade, de burn-out (esgotamento no trabalho). Rimos amarelo. Rimos sozinhos. Seu estilo contrasta com o riso coletivo de Bourvil: aqui, cada um ri (ou não) na sua cabeça.
Haroun (nascido em 1980) propõe um stand-up cerebral e frio. Sem caretas. Sem exageros (interpretação exagerada). Apenas uma análise política refinada. Um olhar frio sobre a atualidade. « Sécurité intérieure » (2020) disseca a França pós-atentados. Ele fala dos discursos de segurança, dos medos coletivos. Sorrimos discretamente. Refletimos.

Cena de stand-up parisiense, anos 2020 — um refletor, um microfone, um tijolo aparente ao fundo. É tudo.
Fary (nascido em 1990, franco-senegalês) se torna em 2018 o primeiro francês a conseguir um Netflix Special: « Fary Is the New Black ». Ele conta sobre o subúrbio parisiense, o racismo cotidiano, a integração à francesa. A Netflix abre a porta para uma nova geração: Panayotis Pascot, Inès Reg, Laura Laune, Redouane Bougheraba.
Panayotis Pascot (nascido em 1998) é a revelação de 2022 com « Presque ». Ele fala de depressão, de homossexualidade, de relações difíceis com seus pais. O stand-up se torna introspectivo e terapêutico. Rimos da nossa própria dor. Choramos um pouco também.
Hoje, a cena se democratizou. Open-mics (microfones abertos) acontecem todas as noites em Paris, Lyon, Marselha. Qualquer pessoa pode subir ao palco e testar cinco minutos diante de dez pessoas. O riso, outrora coletivo e familiar, se tornou individual. Cada um escolhe seu comediante como escolhe sua playlist no Spotify.
Pequeno quadro · Um falso cognato para lembrar
« Comédien » ≠ « comediante »!
Em francês, un·e comédien·ne = um·a ator/atriz em português — qualquer ator ou atriz, que ele ou ela interprete teatro dramático ou comédia. Isabelle Huppert é uma grande comédienne, mesmo que ela interprete Racine e não Molière!
Em português brasileiro, um·a comediante = un·e humoriste em francês — alguém cuja profissão é fazer rir. Blanche Gardin é une humoriste em francês, não une comédienne no sentido estrito.
Tradução correta:
- « Blanche Gardin est une humoriste » → « Blanche Gardin é uma comediante »
- « Marion Cotillard est une comédienne » → « Marion Cotillard é uma atriz »
Armadilha clássica:
« C'est un bon comédien » NÃO quer dizer « ele é engraçado ». Quer dizer « ele é um bom ator ».
Dica mnemônica: em francês, dizemos « humoriste » quando queremos dizer « aquele ou aquela que faz rir ». A palavra « comédien » é mais genérica e abrange todo o espectro da interpretação.
Para ir mais além (YouTube)
Seis vídeos cult para ouvir o riso francês evoluir:
-
🎬 « La Grande Vadrouille » — a cena do banho turco (Tea for Two)
— as famosas três notas cantaroladas por Bourvil e De Funès.
-
— De Funès vestido de rabino dançando, um minuto de cinema inesquecível.
-
🎬 Coluche — « Le Schmilblick » (1976)
— o ancestral do esquete de TV absurdo, com Martin Lamotte.
-
🎬 Blanche Gardin — « Bonne nuit Blanche » (trecho)
— atenção, linguagem coloquial e temas adultos.
-
🎬 Haroun — « SEULs » (trecho inédito)
— humor cerebral e sorriso discreto, em seu canal oficial.
-
🎬 Fary — « Fary Is the New Black » (trailer Netflix)
— o primeiro Netflix Special francês.
Conclusão
Em sessenta anos, passamos do riso familiar de Bourvil ao sorriso frio de Haroun. Ainda rimos — mas cada um na sua sala, na Netflix, no seu celular. Não é pior nem melhor. É simplesmente nossa época. E saber rir em francês também é entender quem ri, com quem, e por quê. Pois uma língua sem humor é como um filme mudo: possível, mas muito triste.
Mini-léxico final
| Francês | Português (BR) |
|---|---|
| Rire | Dar risada |
| Un·e humoriste | Um·a comediante |
| Un·e comédien·ne | Um·a ator/atriz |
| Un sketch | Um esquete |
| Le café-théâtre | O teatro-café (pequenos teatros parisienses dos anos 70-80) |
| Un one-man-show | Um show solo |
| Un stand-up | O stand-up (mesmo nome) |
| Une grimace | Uma careta |
| Un tic | Um tique nervoso |
| Une mimique | Uma mímica |
| Un open-mic | Um microfone aberto (noite de estreantes) |
| Sortir un spectacle | Lançar um espetáculo |
— Lionel Philippe · alias « Monsieur Merci Bonjour »
Exercícios
1) Múltipla escolha — Compreensão global
Escolha a resposta correta.
- Qual filme de 1966 fez 17 milhões de entradas no cinema?
- Quem criou os Restos du Cœur?
- Qual era o slogan de Coluche para a eleição presidencial de 1981?
- Onde começam as carreiras de Michel Boujenah e Muriel Robin?
2) Verdadeiro ou Falso
Diga se é verdadeiro (V) ou falso (F).
- Bourvil e Louis de Funès atuam juntos em « Les Aventures de Rabbi Jacob ». ___
- Louis de Funès nasceu em 1914. ___
- Coluche morre num acidente de carro em 1985. ___
- O café-teatro « Le Splendid » cria « Le Père Noël est une ordure » em 1979. ___
- De Funès interpreta um pintor em « La Grande Vadrouille ». ___
3) Falsos cognatos: Comédien ou Humoriste?
Complete com a palavra que convém: "comédien" ou "humoriste".
- Louis de Funès é um grande _____ que faz rir com suas caretas no cinema.
- Coluche é um _____ que critica a sociedade em seus esquetes.
- Bourvil é um _____ de teatro e de cinema que interpreta papéis ingênuos e tocantes.
4) Produção curta
Responda em 3-4 frases.
Qual ator ou comediante francês você prefere neste texto? Por quê? O que te faz rir nessa pessoa?
Gabaritos
1) Múltipla escolha
| Questão | Resposta | Explicação |
|---|---|---|
| 1 | b) La Grande Vadrouille | O texto diz: « O filme faz 17 milhões de entradas no cinema. É um recorde nunca batido na França. » |
| 2 | c) Coluche | « Em 1985, ele cria os Restos du Cœur ». |
| 3 | b) Coluche président | Está escrito no texto. |
| 4 | c) No café-teatro | « Michel Boujenah, Pierre Palmade, Muriel Robin começam lá. » |
2) Verdadeiro ou Falso
| Afirmação | Resposta | Explicação |
|---|---|---|
| 1 | F | De Funès atua sozinho em « Les Aventures de Rabbi Jacob ». Bourvil não participa desse filme. |
| 2 | V | O texto confirma: « Louis de Funès (1914-1983) ». |
| 3 | F | Coluche morre em 1986 num acidente de moto, não de carro. |
| 4 | V | O texto diz: « Em 1979, a trupe do Splendid cria « Le Père Noël est une ordure ». » |
| 5 | F | É Bourvil quem interpreta um pintor. De Funès interpreta um maestro. |
3) Falsos cognatos
Explicações:
- Comédien = ator de cinema ou de teatro (interpreta papéis, personagens).
- Humoriste = pessoa que faz rir contando piadas, esquetes (frequentemente ela mesma).
| Frase | Resposta | Explicação |
|---|---|---|
| 1 | comédien | De Funès é ator de cinema e de teatro. |
| 2 | humoriste | Coluche conta esquetes e critica a sociedade. Ele fala em seu próprio nome. |
| 3 | comédien | Bourvil interpreta papéis, personagens no cinema e no teatro. |
4) Produção curta
Exemplo de resposta:
« Eu gosto muito de Coluche porque ele não apenas faz rir: ele também critica a sociedade. Seus esquetes são absurdos e inteligentes. Acho corajoso que ele se candidate à eleição presidencial. E é bonito que ele crie os Restos du Cœur para ajudar os pobres. »
Ou:
« Eu prefiro Louis de Funès. Suas caretas são engraçadas e exageradas. Rimos de seus movimentos bizarros e de sua voz. É fácil de entender mesmo sem falar francês. De Funès é universal! »
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