Nível B2 · Entre gênio militar e déspota colonial, Napoleão Bonaparte encarna todas as contradições de sua época. Esse corso de pequena nobreza redesenhou o mapa da Europa, codificou o direito francês moderno… e restabeleceu a escravidão abolida oito anos antes. Mergulho numa lenda rachada.
Napoleão Bonaparte : a lenda e sua sombra
15 de agosto de 1769, Ajaccio. Uma criança nasce numa casa de pedra ocre, a poucos passos do mar Tirreno. Quarenta e seis anos depois, ele morre num rochedo perdido no Atlântico Sul, depois de ter feito tremer todos os tronos da Europa. Entre essas duas ilhas : uma trajetória fulminante (= rápida e espetacular), um Código Civil que ainda rege nossas vidas, milhões de mortos… e uma questão que a França ainda tem dificuldade de resolver : Napoleão foi herói ou tirano ?
1. Um corso em Paris
Em 1779, o jovem Napoleone Buonaparte — ele afrancesaria mais tarde seu prenome — desembarca em Brienne-le-Château para ingressar na escola militar. Ele tem dez anos, fala mal o francês, e seus colegas zombam de seu sotaque corso. No entanto, esse garoto franzino devora os livros de história antiga e se destaca em matemática. Aos dezesseis anos, ele ingressa na École militaire de Paris ; aos dezessete, já é subtenente de artilharia.
A Revolução Francesa irrompe em 1789. Bonaparte a observa primeiro com desconfiança — ele é monarquista por prudência familiar —, depois adere por oportunismo. Em 1793, no cerco de Toulon contra os ingleses, ele se distingue por um plano de artilharia audacioso. Da noite para o dia, vira general de brigada. Ele tem vinte e quatro anos.
Número-chave n° 1 : entre 1793 e 1799, Bonaparte lidera 17 campanhas militares importantes. Nenhum outro general francês da época alcança esse ritmo.
2. O estrategista
Em 18 brumário do ano VIII (9 de novembro de 1799), Bonaparte derruba o Diretório por meio de um golpe de Estado. Ele se proclama primeiro-cônsul, depois cônsul vitalício (1802) e, finalmente, imperador dos franceses (1804). Em Notre-Dame, ele arranca a coroa das mãos do papa Pio VII e a coloca ele mesmo na própria cabeça — gesto simbólico de um poder que só deve a si mesmo.
Nos campos de batalha, Napoleão revoluciona a arte da guerra. Seus exércitos são móveis, atacam rápido, desorganizam o adversário antes que ele se reagrupe. Austerlitz (1805), Iena (1806), Wagram (1809) : tantas vitórias esmagadoras que lhe dão o controle de quase toda a Europa continental. Apenas a Inglaterra resiste, protegida por sua marinha.
Mas Napoleão comete dois erros fatais : a campanha da Rússia (1812), em que 400 mil soldados franceses morrem de frio e fome, e o atolamento na Espanha, guerra de guerrilha que sangra seu exército durante seis anos.
« Do sublime ao ridículo, há apenas um passo. »> — Napoleão Bonaparte, dezembro de 1812, ao voltar da Rússia
3. O legislador (Código Civil)
Em 1804, Napoleão promulga o Code civil des Français, ainda apelidado de « Código Napoleônico ». Esse texto de 2 281 artigos unifica o direito francês, até então fragmentado em costumes locais contraditórios. Ele garante a igualdade perante a lei, a propriedade privada, a laicidade do registro civil. Mas também consagra a autoridade absoluta do pai de família : uma mulher casada não pode trabalhar sem a autorização do marido, nem administrar seus bens, nem testemunhar em juízo.
O Código Civil será exportado para toda a Europa conquistada — Bélgica, Itália, Holanda, Polônia — e ainda hoje inspira os sistemas jurídicos de 70 países, do Quebec ao Japão.
Número-chave n° 2 : em 1810, o Império napoleônico se estende por 750 mil km² e conta com 44 milhões de habitantes, ou seja, um terço da população europeia.
4. A sombra : 1802 e a escravidão restabelecida
Aqui está o ponto cego (= o que a gente se recusa a enxergar) da narrativa nacional francesa : em 20 de maio de 1802, Bonaparte restabelece a escravidão nas colônias, abolida oito anos antes pela Convenção em 1794. Por quê ? Pressão dos fazendeiros antilhanos, lobby de sua esposa Josefina (nascida na Martinica numa família escravagista), cálculo econômico : o açúcar e o café rendem muito.
Em Saint-Domingue (atual Haiti), o ex-escravo Toussaint Louverture havia instaurado uma república negra autônoma. Napoleão envia 20 mil homens sob o comando de seu cunhado, o general Leclerc, para « restabelecer a ordem ». Louverture é capturado por traição, deportado para a França, onde morre de frio num calabouço do Jura em 1803. Mas os haitianos resistem : em 1804, proclamam a independência, primeira república negra da História. A França só a reconhecerá em 1825… mediante uma indenização de 150 milhões de francos-ouro.
Esse restabelecimento da escravidão, por muito tempo silenciado nos livros didáticos franceses, pesa bastante no julgamento póstumo (= após a morte) de Napoleão. Em 2001, a loi Taubira reconhece o tráfico e a escravidão como crimes contra a humanidade. Em 2021, Emmanuel Macron se recusa a « desculpar » Napoleão por ocasião do bicentenário de sua morte, ao mesmo tempo em que saúda « uma parte de nossa história ».
5. A queda e o mito
Em 1813, a coalizão europeia aperta o cerco (= a armadilha). Napoleão perde a batalha de Leipzig (« batalha das Nações »), abdica em abril de 1814 e parte para o exílio na ilha de Elba, no Mediterrâneo. Mas dez meses depois, ele escapa, desembarca em Golfe-Juan e sobe em direção a Paris : é o « voo da Águia », os Cem Dias. Em 18 de junho de 1815, em Waterloo (Bélgica), enfrenta Wellington e Blücher. Derrota total. Napoleão abdica pela segunda vez.
Os ingleses o exilam em Santa Helena, ilha vulcânica de 122 km² perdida no meio do Atlântico Sul, a 1 900 km das costas africanas. Ele morre lá em 5 de maio de 1821, provavelmente de câncer no estômago, aos cinquenta e um anos. Em 1840, suas cinzas são repatriadas a Paris e depositadas sob a cúpula dos Invalides, num sarcófago de pórfiro vermelho — como os imperadores romanos.
Mini-cronologia
| Data | Evento |
|---|---|
| 1769 | Nascimento em Ajaccio (Córsega) |
| 1799 | Golpe de Estado de 18 brumário |
| 1802 | Restabelecimento da escravidão |
| 1804 | Coroação em Notre-Dame, Código Civil promulgado |
| 1812 | Retirada da Rússia (400 mil mortos) |
| 1815 | Waterloo e exílio definitivo |
| 1821 | Morte em Santa Helena |
Para ir mais longe
Ainda hoje, Napoleão divide (= polariza) a França. Será que a gente deve derrubar suas estátuas ? Será que devemos tirar seu nome das ruas ? Ou aceitar a contradição : um gênio militar combinado a um déspota colonial, um modernizador do direito e um restaurador da escravidão ?
A historiadora Françoise Vergès escreve : « A gente não pode celebrar Napoleão sem falar de 1802 ». Talvez essa seja toda a lição : encarar a História de frente, sem hagiografia (= biografia excessivamente elogiosa) nem iconoclastia (= destruição sistemática dos símbolos). Napoleão pertence à História ; cabe a nós fazer a crítica dela.
Mini-lexique (termos B2)
| Français | Português (BR) |
|---|---|
| fulgurante | fulminante, meteórica |
| point aveugle | ponto cego |
| resserrer l’étau | apertar o cerco |
| procès posthume | julgamento póstumo |
| cliver | dividir, polarizar |
| hagiographie | hagiografia (biografia excessivamente elogiosa) |
— Lionel Philippe · vulgo « Monsieur Merci Bonjour »

