Match praia normanda vs praia carioca — duas formas de ir ao mar

Dois mares, dois verões. A praia normanda na França, a praia carioca
no Brasil. Uma se caminha de suéter, a outra se vive de maiô. Uma tem
cabines, a outra tem quiosques. Uma range sob os seixos, a outra canta
sob as ondas. Duas formas totalmente opostas de ir ao mar — e, ainda assim,
a mesma necessidade: sair da cidade, escutar a água, esquecer a semana.
O confronto
A praia normanda (França, século XIX–…) — Deauville, Trouville, Cabourg,
Étretat. Inventada pelos impressionistas (Boudin, Monet), popularizada pelo
Segundo Império, as cabines de praia listradas em coração. Areia + seixos,
vento do norte, maré que recua por 500 metros. Vai-se de suéter, de
capa de chuva, em família. Come-se ostras de Cancale ou de Utah Beach
ao meio-dia, caminha-se quilômetros descalço à noite, volta-se com as
bochechas vermelhas. O mar é um cenário — não se nada muito nele, mas
se olha para ele por muito tempo.
A praia carioca (Brasil, anos 1920–…) — Copacabana, Ipanema, Leblon,
Barra da Tijuca. Areia branca até onde a vista alcança, água a 26°C, ondas
que batem. Fronteira tênue entre a cidade e o mar: em Ipanema, você caminha
50 metros a partir de um prédio e já está na praia. Vai-se todos os dias,
ao meio-dia, de maiô mínimo. Aluga-se uma cadeira + um guarda-sol por
20 reais, come-se na praia (camarão empanado, queijo coalho grelhado,
açaí), joga-se futevôlei ou frescobol, pula-se nas ondas. O mar é
um estádio — um espaço social tanto quanto aquático.
O confronto? Ninguém vence. As duas praias são instituições
sociais:
- A praia normanda é um retiro — vai-se para desacelerar.
- A praia carioca é um cotidiano — vai-se para viver.
Os climas que combinam com cada uma
Lado França

Cesta de vime, garrafa térmica de café, cobertor de lã, um romance ou um
bloco de desenho, a camisa marinheira, as sapatilhas. Ao meio-dia: doze
ostras com limão, um pão, manteiga. O vento que vira as páginas. Uma
criança que empilha os seixos. Um cachorro molhado que se sacode.
Lado Brasil

Canga no chão, açaí na mão, música numa caixinha de som, biquíni mínimo,
água de coco direto do coco verde, uma bola de futevôlei enterrada na
areia. Biscoito Globo do vendedor ambulante ("olha o biscoito!"),
areia quente sob os pés, mar verde-turquesa, o Corcovado ao fundo.
Cinco horas até o sol cansar.
O que essas praias nos contam
Uma praia se lê como uma sociedade. A praia normanda é
vertical: separa a areia do mar, o maiô da roupa, a refeição do banho.
É um quadro que se respeita. A praia carioca é horizontal: mistura
tudo, é atravessada pela cidade, pelo trabalho (os vendedores), pela
música, pelo esporte. É um espaço contínuo que prolonga a rua.
Talvez um carioca na Normandia mantenha suas sandálias de dedo enquanto
todo mundo está de sapato. Talvez um francês em Ipanema mantenha a
camiseta enquanto todo mundo está sem camisa. Cada um traz seu código —
e o mar, esse, não diz nada.
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