Maio de 68: os paralelepípedos, as barricadas, a França que muda (B1)
« Senta aí. Serve um copo pra você. Vou te contar maio de 68 — não a versão dos livros. A verdadeira. Aquela que eu vivi com meus vinte anos, meus paralelepípedos no bolso e minha cabeça cheia de sonhos. »
Maio de 68: os paralelepípedos, as barricadas, a França que muda (B1)
Nível: B1 · Categoria: História
Sabe, garoto, maio de 68 não foi só uma revolta estudantil. Foi um terremoto. A França de antes e a França de depois não são o mesmo país. E eu estava lá. Primeiro estudante de história em Nanterre, depois na Sorbonne. Subi nas barricadas, joguei paralelepípedos, levei cacetada. Também fiz greve na fábrica, na casa do meu primo, em Billancourt.
Então segura na cadeira. Vou te contar como quase derrubamos o de Gaulle.
O contexto: a França de 1968
Em 1968, de Gaulle está no poder há dez anos. Dez anos! O general, herói de guerra, presidente autoritário (= que impõe seu poder sem discussão). A França é próspera (= rica), mas a sociedade está engessada. As mulheres não podem abrir conta no banco sem autorização do marido. As universidades estão superlotadas: éramos 500 mil estudantes, dez vezes mais que em 1945. Os anfiteatros transbordam. Os professores falam, a gente anota, e cala a boca.
Nós, os jovens, estávamos sufocando. Olhávamos para os Estados Unidos, para a guerra do Vietnã. Ouvíamos Beatles, Dylan. Líamos Sartre, Che Guevara. Queríamos viver de outro jeito. Falar. Contestar. Amar livremente. Mas do outro lado tinha a ordem moral (= as regras rígidas da sociedade conservadora). Aquilo não tinha graça nenhuma.
E tinha a universidade de Nanterre. Uma faculdade novinha, construída no meio da lama, a oeste de Paris. Os meninos de um lado, as meninas do outro. Proibido se misturar nos alojamentos (= os prédios onde os estudantes moravam). Você imagina? A gente tinha vinte anos, era bonito e bobo, e nos impediam de nos ver à noite.
Foi ali que tudo começou.
Nanterre → Sorbonne: a faísca
Em 22 de março de 1968, ocupamos o prédio administrativo de Nanterre. Queríamos discutir. Por que a gente não podia ir ver as meninas? Por que as aulas eram péssimas? Por que a França apoiava os americanos no Vietnã? O reitor (= o diretor da faculdade) fecha a universidade. Erro.
A gente se move para a Sorbonne, bem no coração de Paris. No dia 3 de maio, a polícia evacua a Sorbonne à força. Policial pra todo lado. Prisões. Estudantes espancados (= agredidos com cassetete, o bastão da polícia).
E aí explode tudo. Os sindicatos estudantis chamam a greve. O Quartier Latin vira zona de guerra. A gente arranca as grades das árvores, arranca os paralelepípedos da rua. Está me acompanhando?
« Sous les pavés, la plage »
Esse slogan, eu mesmo pintei numa parede da rue Gay-Lussac. A gente arrancava os paralelepípedos da rua — embaixo tinha areia. A praia! Sonhávamos com liberdade, sol, uma vida mais leve. Debaixo da ordem burguesa, tinha nosso mundo a inventar.
A noite das barricadas (10-11 de maio)
Na noite de 10 de maio, construímos barricadas por todo o Quartier Latin. Carros virados, árvores cortadas, paralelepípedos empilhados. Éramos milhares. Estudantes, colegiais, operários também. A gente cantava, discutia, esperava.
Meia-noite. Os CRS (= Companhias Republicanas de Segurança, a polícia de choque) atacam. Gás lacrimogêneo pra todo lado. A gente chora, tosse, corre. Jogamos paralelepípedos. Eles nos batem com cassetete. Uns brutos mesmo (= pessoas violentas e estúpidas, expressão informal).
« CRS = SS »
Cuidado, esse slogan é violento. Os SS eram os nazistas. Comparávamos os CRS aos nazistas. Foi exagerado, até injusto. Mas na raiva daquela noite, com o gás queimando os olhos e os amigos sangrando, a gente gritou isso. Queríamos chocar. E chocou.
400 feridos naquela noite. Dezenas de prisões. Mas no dia seguinte, a França inteira falava da gente. Os sindicatos operários convocam a greve geral pra 13 de maio. Ganhamos a batalha da opinião pública.
« Il est interdit d'interdire »
Em todo lugar nas paredes, esse slogan magnífico. Rejeitávamos todas as proibições: morais, políticas, universitárias. Queríamos decidir por nós mesmos. Viver nossas vidas. Pensar livremente.
A greve geral: uma França paralisada
Em 13 de maio, manifestação gigante em Paris. Um milhão de pessoas. Estudantes e operários lado a lado. E aí as fábricas entram em greve. Renault, em Billancourt primeiro — onde meu primo trabalhava. Depois em todo lugar: minas, ferrovias, correios, hospitais.
Em três dias, dez milhões de grevistas. Dez milhões! Metade dos trabalhadores franceses. O país paralisado. Sem gasolina. Sem trens. Sem correio. O lixo se acumulando nas ruas de Paris.
Eu fui pra Billancourt ajudar meu primo. A gente ocupava a fábrica dia e noite. Discutíamos, fumávamos, organizávamos assembleias gerais (= reuniões onde todo mundo pode falar e votar). A gente não queria só um aumento de salário. Queria mudar o trabalho. Menos hierarquia (= menos chefes mandando). Mais respeito. Uma sociedade diferente.
« Soyez réalistes, demandez l'impossible »
Esse slogan me fazia sonhar. Não queríamos só melhorar o sistema. Queríamos reinventar tudo. A fábrica, a universidade, a família, o amor. Tudo.
Os acordos de Grenelle: vitórias e derrotas
Em 25 de maio, o governo entra em pânico. O primeiro-ministro Georges Pompidou reúne os sindicatos no ministério da rue de Grenelle. Negociação maratona (= muito longa). Na manhã de 27 de maio, os acordos de Grenelle são assinados.
Vitórias sociais enormes:
- O salário mínimo aumenta 35%.
- Uma quarta semana de férias remuneradas.
- Reconhecimento da seção sindical na empresa (= o direito de ter um sindicato em cada fábrica).
Mas em Billancourt, quando os delegados anunciam os acordos, os operários recusam. Eles querem mais. A greve continua.
De Gaulle desaparece em 29 de maio. Ninguém sabe onde ele está. Rumores: fugiu, vai renunciar. Na verdade, ele foi ver o exército na Alemanha pra checar o apoio das tropas. No dia 30 de maio, ele volta. Discurso na rádio: firmeza total. Ele dissolve a Assembleia Nacional (= convoca eleições legislativas). E aí a coisa vira.
Na mesma noite, um milhão de gaullistas se manifestam nos Champs-Élysées. "De Gaulle presidente! Ordem e autoridade!" A França tem medo. As pessoas querem que aquilo pare.
Nas eleições de junho, é uma vitória esmagadora pra de Gaulle. Perdemos politicamente. Mas tínhamos ganhado nas cabeças.
« Élections, piège à cons »
Depois de Grenelle, alguns escreveram esse slogan amargo. Achavam que as eleições só serviam pra adormecer a revolução. Eu não concordava. Mas entendia a raiva.
O que realmente mudou
Maio de 68 não derrubou de Gaulle na hora (ele renunciaria em 1969, um ano depois). Não fez a revolução. Mas transformou a França profundamente.
Os direitos das mulheres: em 1974, a maioridade passa para 18 anos (antes era 21). Em 1975, a lei Veil autoriza o IVG (= interrupção voluntária da gravidez, o aborto). As mulheres se divorciam mais facilmente. Trabalham sem autorização do marido.
A relação com a autoridade: os professores não são mais intocáveis. Os pais dialogam com os filhos. Os patrões precisam negociar com os sindicatos.
A universidade: a lei Edgar Faure (novembro de 1968) reforma a universidade. Mais autonomia. Participação dos estudantes. Não é perfeito, mas é melhor.
« L'imagination au pouvoir »
Esse slogan era o mais bonito de todos. Queríamos inventar, criar, sonhar. E sabe de uma coisa? A gente fez isso. O feminismo, a ecologia, as rádios livres, a cultura alternativa — tudo isso vem de maio de 68.
Eu, depois de 68, não terminei meus estudos. Trabalhei na gráfica, viajei, abri este bistrô. Mas nunca me arrependi. Eu vivi. Acreditei que dava pra mudar o mundo. E mesmo que a gente não tenha mudado tudo, mudamos alguma coisa.
Então quando você ouvir alguém dizer que maio de 68 não serviu pra nada, diz pra essa pessoa, da minha parte, que ela não sabe do que está falando.
📚 Mini-léxico (FR|PT-BR)
| Francês | Português (BR) |
|---|---|
| la grève | a greve |
| un gréviste | um grevista |
| un syndicat | um sindicato |
| un pavé | uma pedra de calçamento |
| une barricade | uma barricada |
| une manifestation | uma manifestação |
| un manifestant | um manifestante |
| un CRS | um policial de choque |
| un slogan | um slogan |
| autoritaire | autoritário |
| prospère | próspero |
| le SMIC (salaire minimum) | o salário mínimo |
— Lulu, dono do bistrô da esquina · ex-grevista de maio de 68
Exercícios
1. Compreensão global (múltipla escolha)
Leia as perguntas e escolha a resposta certa.
- Qual é o contexto principal que desencadeou os eventos de maio de 68?
- Onde tudo começou, segundo o depoimento?
- O que simboliza o sonho dos manifestantes no slogan « Sous les pavés, la plage »?
- Qual evento provocou a explosão do movimento estudantil?
- O que os estudantes de Nanterre pediam principalmente no início?
2. Compreensão detalhada (múltipla escolha)
Responda às perguntas com base nos detalhes do texto.
- Em que ano o General de Gaulle estava no poder havia dez anos?
- Quantos estudantes havia na França em 1968?
- Qual era o evento internacional que influenciava os jovens franceses?
- Em que data a polícia evacuou a Sorbonne?
- Quantos feridos houve durante a "Noite das barricadas"?
3. Associação de vocabulário
Associe cada termo à sua definição.
| Termo | Definição |
|---|---|
| 1. Autoritário | a) Grupo de policiais de choque na França |
| 2. Próspero | b) Que impõe seu poder sem discussão |
| 3. Superlotado | c) Os prédios onde os estudantes moram |
| 4. Reitor | d) Que contém coisas ou pessoas demais |
| 5. Alojamentos | e) Diretor de uma faculdade |
| 6. Grade | f) Rico, em boa situação econômica |
| 7. CRS | g) Assembleia de pessoas nas universidades |
| 8. Anfiteatro | h) Barreira ou cerca ao redor das árvores |
| 9. Cassetete | i) Bastões usados pela polícia |
| 10. Barricada | j) Construção defensiva feita com objetos para bloquear uma rua |
4. Produção escrita
Responda às perguntas seguintes em algumas frases (mínimo 4-5 frases).
Pergunta 1: Por que os jovens se sentiam sufocados em 1968? Descreva a situação deles.
Modelo de resposta:
Os jovens se sentiam sufocados em 1968 porque a sociedade francesa era muito conservadora e autoritária. As universidades estavam superlotadas, com pouca liberdade de expressão. Em Nanterre, por exemplo, meninos e meninas não podiam se misturar. As mulheres tinham poucos direitos, como não poder abrir conta em banco sozinhas. Além disso, os jovens se interessavam por ideias novas (música rock, filosofia de Sartre, política internacional) que a sociedade estabelecida rejeitava. Essa frustração criou um desejo de revolta e mudança.
Pergunta 2: Na sua compreensão, qual foi o impacto da "Noite das barricadas" (10-11 de maio)? Por que esse evento foi importante para o movimento?
Modelo de resposta:
A Noite das barricadas foi um momento decisivo para maio de 68. Embora a polícia tenha sido muito violenta com gás lacrimogêneo e cassetetes, causando 400 feridos, esse confronto deu visibilidade ao movimento. No dia seguinte, toda a França falava dos estudantes. Os sindicatos operários ficaram impressionados com a coragem dos jovens e convocaram a greve geral. Isso transformou uma revolta estudantil em um movimento muito mais amplo, incluindo os operários. O evento mostrou que os jovens estavam dispostos a enfrentar o regime e inspirou outras pessoas a aderirem ao movimento.
Gabaritos
Gabarito 1: Compreensão global
| Pergunta | Resposta |
|---|---|
| 1 | b) A insatisfação dos jovens diante da sociedade autoritária e da guerra do Vietnã |
| 2 | b) Na universidade de Nanterre |
| 3 | b) A liberdade e uma vida nova, longe da ordem estabelecida |
| 4 | b) A evacuação da Sorbonne pela polícia em 3 de maio |
| 5 | b) O fim da separação entre meninos e meninas nos alojamentos e discussões sobre as aulas e a política |
Gabarito 2: Compreensão detalhada
| Pergunta | Resposta |
|---|---|
| 1 | b) 1958 (1968 - 10 = 1958) |
| 2 | c) 500 mil |
| 3 | b) A guerra do Vietnã |
| 4 | b) Em 3 de maio de 1968 |
| 5 | c) Cerca de 400 |
Gabarito 3: Associação de vocabulário
| Termo | Resposta |
|---|---|
| 1. Autoritário | b) Que impõe seu poder sem discussão |
| 2. Próspero | f) Rico, em boa situação econômica |
| 3. Superlotado | d) Que contém coisas ou pessoas demais |
| 4. Reitor | e) Diretor de uma faculdade |
| 5. Alojamentos | c) Os prédios onde os estudantes moram |
| 6. Grade | h) Barreira ou cerca ao redor das árvores |
| 7. CRS | a) Grupo de policiais de choque na França |
| 8. Anfiteatro | g) Assembleia de pessoas nas universidades |
| 9. Cassetete | i) Bastões usados pela polícia |
| 10. Barricada | j) Construção defensiva feita com objetos para bloquear uma rua |
Gabarito 4: Produção escrita
As respostas às perguntas abertas podem variar. Os modelos fornecidos acima representam as respostas esperadas no nível B1. Os critérios de avaliação incluem: a compreensão do texto, o uso correto da gramática e do vocabulário, e uma resposta completa às perguntas feitas.

