Maio de 68 · o legado: o que a França deve a 3 semanas de maio (B2)
« Senta aí. Serve uma taça. Vou te contar maio de 68 — não a versão dos livros. A de verdade. Aquela que mudou nossas cabeças, nossos salários, nossos amores, nossos filhos. Cinquenta e oito anos depois, ainda se fala disso. »
Maio de 68 · o legado: o que a França deve a 3 semanas de maio (B2)
Você me conhece. Não sou do tipo que conta história com datas e grandes nomes. Mas maio de 68 é diferente. Eu estava lá. Tinha dezenove anos, estudante de história em Nanterre, depois na Sorbonne. Subi nas barricadas do Quartier Latin, joguei paralelepípedos, levei cacetadas, fiz greve na fábrica do meu primo em Billancourt. A gente era bobo, era bonito, tinha vinte anos.
Politicamente, a gente perdeu. As eleições de junho de 68 foram uma vitória esmagadora de de Gaulle. Mas nas cabeças, na sociedade, nos corpos — a gente ganhou. E hoje, cinquenta e oito anos depois, a França deve praticamente tudo que é vivo a essas três semanas. Deixa eu te explicar.
« Sous les pavés, la plage »
É o slogan mais famoso. Você já viu por aí, talvez sem entender. Deixa eu te contar.
Em maio de 68, os estudantes arrancaram os paralelepípedos das ruas do Quartier Latin para jogar nos policiais. Debaixo dos paralelepípedos, descobriram... areia. A areia das antigas margens do Sena, de antes de Paris ser pavimentada. E alguém teve a ideia genial: « Sous les pavés, la plage. »
« Sous les pavés, la plage. »
Isso queria dizer: debaixo da ordem, a liberdade. Debaixo das regras, o desejo. Debaixo da sociedade burguesa engessada, a espontaneidade, o prazer, a vida. Era um grito poético, um programa político. A gente queria quebrar o carcan (a estrutura rígida, sufocante) da sociedade gaullista — família, trabalho, pátria, obediência.
Hoje, quando você vê um jovem recusando um contrato fixo pra viajar seis meses pela Ásia, quando você vê uma mulher deixando o marido aos cinquenta anos pra viver a própria vida, quando você vê alguém dizendo "não" pro patrão — isso é maio de 68. Debaixo dos paralelepípedos, a praia.
A grande virada cultural
Antes de 68, a França parecia com o quê? Homens de terno completo, cabelo curto, barbeados. Mulheres de saia, nada de calça no escritório. Os jovens obedeciam. Os pais decidiam tudo — sua profissão, seu casamento, sua vida.
Maio de 68 quebrou tudo isso.
De repente, cabelos compridos, jeans, jaquetas de couro. Meninas de calça, meninos de cabelo comprido. As comunas (grupos de jovens que viviam juntos, dividindo tudo). O rock, os festivais, Woodstock em 69. A liberdade sexual. A pílula anticoncepcional, coberta pela Seguridade Social em 1974 (obrigado, Simone Veil, gaullista mas com a cabeça no lugar).
Os pais não entendiam nada. « Vocês são uns depravados, vão pro buraco! » A gente não ligava. Queria viver, não obedecer.
Hoje, quando você vê um casal sem casamento formal com três filhos, quando você vê dois homens se beijando na rua, quando você vê uma família recomposta — isso é maio de 68. A sociedade mudou de base. A autoridade não é mais sagrada. O desejo, sim.
O direito trabalhista depois de Grenelle
Maio de 68 não foi só os estudantes. Foram também dez milhões de grevistas. As fábricas paradas por três semanas. Renault, Citroën, Peugeot, as minas, as ferrovias — tudo parado.
O governo entrou em pânico. De Gaulle mandou seu primeiro-ministro, Georges Pompidou, negociar com os sindicatos. Resultado: os acordos de Grenelle, 27 de maio de 1968.
O que a gente conseguiu?
- Aumento do salário mínimo de 35% de uma vez.
- Reconhecimento das seções sindicais dentro das empresas.
- Quarta semana de férias remuneradas generalizada.
- Redução da jornada de trabalho em alguns setores.
Os patrões engoliram seco, mas assinaram. Tinham medo da revolução. E tinham razão.
Hoje, quando você ouve falar de redução de jornada, de representantes sindicais, de acordos coletivos — isso é maio de 68. A correlação de forças mudou. Os trabalhadores não são mais escravos. Têm direitos. Conquistas sociais (os direitos obtidos pelas lutas).
O feminismo emerge
Antes de 68, as mulheres na França não podiam abrir uma conta bancária sem autorização do marido. Sério. Não podiam trabalhar sem o consentimento do marido. Não podiam se divorciar facilmente. Não podiam abortar — o aborto dava cinco anos de prisão.
Maio de 68 liberou os corpos, mas principalmente as cabeças. As mulheres disseram: « A gente também quer liberdade. »
Em 1970, nasce o MLF (Movimento de Libertação das Mulheres). Em 1971, o manifesto das 343: trezentas e quarenta e três mulheres famosas (Simone de Beauvoir, Catherine Deneuve, Marguerite Duras) assinam na revista Le Nouvel Observateur: « Eu declaro ter abortado. » Era ilegal. Elas arriscavam a prisão. Não ligavam.
Em 1972, o julgamento de Bobigny: uma garota de dezesseis anos, estuprada, aborta. A mãe é julgada. A advogada Gisèle Halimi transforma o julgamento numa tribuna política. Absolvição. Três anos depois, Simone Veil consegue aprovar a lei sobre a IVG (interrupção voluntária da gravidez), 1975.
Tudo isso é herança direta de maio de 68. As mulheres tomaram a palavra. Nunca mais a devolveram.
Hoje, quando você vê uma ministra, uma presidente de empresa, uma mulher que vive sozinha e livre — isso é maio de 68.
A escola não é mais como antes
Antes de 68, a escola francesa era um quartel. O professor no estrado, os alunos em fila, silêncio absoluto. Avental cinza obrigatório. Tratamento formal. Castigos corporais. Meninas e meninos separados.
Maio de 68 explodiu tudo isso.
Os professores passaram a tratar os alunos por "você" (em algumas escolas, não em todas). Os aventais desapareceram gradualmente (fim dos anos 70). Os alunos tomaram a palavra. Inventaram-se os "conselhos de classe" com representantes estudantis. Os currículos mudaram — menos decoreba, mais reflexão.
Atenção, não estou dizendo que a escola ficou perfeita. Longe disso. Mas a verticalidade absoluta (o poder que desce de cima, sem discussão) foi quebrada. Os alunos não são mais potes a serem enchidos. Têm direitos. Contestam. Reclamam. Como a gente em 68.
E os professores? Alguns sentem falta da autoridade de antes. Outros adoram essa nova relação. Eu acho que a gente ganhou em humanidade. Perdeu em disciplina, talvez. Mas ganhou em vida.
A contestação permanente
Aí está a verdadeira herança de 68. Os franceses entenderam que podiam dizer não. Descer pra rua. Paralisar o país. Fazer o poder recuar.
Olha a história desde 68:
- 1986: lei Devaquet (reforma da universidade). Os estudantes na rua. Um morto, Malik Oussekine, morto pela polícia. A lei retirada.
- 1995: plano Juppé (reforma da Seguridade Social, das aposentadorias). Greve geral por três semanas. O plano retirado.
- 2006: CPE (contrato de primeiro emprego, ultraprecário pra jovens). Estudantes secundaristas e universitários bloqueiam tudo. A lei retirada.
- 2016: lei Trabalhista (flexibilização da legislação trabalhista). Manifestações por meses. A lei passa, mas retalhada.
- 2018: coletes amarelos. Movimento espontâneo contra o imposto sobre carbono, depois contra Macron. O país paralisado por meses. Macron recua.
- 2023: reforma das aposentadorias (64 anos). Manifestações gigantescas. Macron impõe na marra (artigo 49.3). A raiva não baixa.
Está entendendo? Desde maio de 68, os franceses mantiveram o gosto pela rua. O reflexo da contestação. Assim que um governo mexe nas conquistas sociais, o povo desce. É cansativo. Às vezes ineficaz. Mas é vivo.
« Corre, camarada, o velho mundo está atrás de você. »
Maio de 68 ensinou aos franceses que eles não eram obrigados a aceitar. Que o poder não era sagrado. Que a rua podia ganhar.
Isso irrita os patrões, irrita os presidentes. Pior pra eles.
Mas também as críticas
Atenção. Não vou fazer você acreditar que maio de 68 foi um paraíso. Houve críticas ferozes. E algumas são justas.
Régis Debray, intelectual de esquerda, escreveu em 1978: « Os soixante-huitards (os participantes de maio de 68) acreditaram estar libertando os indivíduos. Só libertaram o mercado. » Segundo ele, maio de 68 matou as estruturas coletivas (sindicatos, Partido Comunista, Igreja) e abriu caminho pro capitalismo selvagem dos anos 80. Cada um por si. O individualismo.
Michel Houellebecq, escritor, cravou o prego: « Maio de 68 destruiu a família, os valores, o laço social. Só sobraram indivíduos sozinhos, atomizados, infelizes. »
A direita de Sarkozy, em 2007, queria « liquidar a herança de maio de 68 » (destruir essa herança). Segundo ele, maio de 68 era responsável por todos os males: jovens irresponsáveis, professores relapsos, autoridade desrespeitada.
Essas críticas têm seu fundo de verdade. Maio de 68 destruiu estruturas sem sempre substituí-las. A família se estilhaçou. A escola perdeu autoridade. O coletivo recuou.
Mas eu te digo: a alternativa era o quê? Ficar na sociedade de 1967? As mulheres em casa, os operários explorados, os jovens calados, os homossexuais escondidos?
Não, obrigado.
Maio de 68 abriu portas. Algumas deram em becos sem saída. Outras, em jardins. A gente não acertou tudo. Mas pelo menos tentou. Viveu.
Léxico FR|PT-BR
| Francês | Português (Brasil) |
|---|---|
| le carcan | a estrutura rígida, sufocante |
| remettre en cause | questionar, contestar |
| la contestation | a contestação, o protesto |
| un mouvement social | um movimento social |
| une convention collective | uma convenção coletiva (acordo de trabalho) |
| la libération sexuelle | a liberação sexual |
| le tutoiement | o tratamento por « você » |
| un soixante-huitard | um participante de maio de 68 |
| liquider un héritage | destruir uma herança |
| la spontanéité | a espontaneidade |
| un slogan | um slogan |
| une grève générale | uma greve geral |
| une manifestation | uma manifestação |
| un manifeste | um manifesto |
| un acquis social | um direito social conquistado |
— Lulu, dono do bistrô da esquina · ex-grevista de maio de 68
Exercícios
Exercício 1: Compreensão global (múltipla escolha)
Escolha a resposta correta.
1. Qual é o objetivo principal deste texto?
- a) Explicar as causas políticas de maio de 68
- b) Mostrar o legado de maio de 68 na sociedade francesa contemporânea
- c) Criticar o governo de de Gaulle em 1968
- d) Contar os eventos dia a dia com datas precisas
2. O que significa o slogan « Sous les pavés, la plage »?
- a) Era preciso limpar as ruas depois das barricadas
- b) É um chamado para a criação de praias na cidade
- c) É uma metáfora para expressar o desejo de liberdade contra a ordem estabelecida
- d) É um grito de protesto contra a poluição em Paris
3. Segundo o autor, quem "ganhou" mesmo em maio de 68?
- a) De Gaulle e seu governo
- b) Os sindicatos e os partidos políticos
- c) Os manifestantes, porque mudaram as mentalidades e a sociedade
- d) Os patrões das grandes fábricas
4. Os acordos de Grenelle dizem respeito principalmente a:
- a) A vida estudantil e o acesso à universidade
- b) Os direitos dos trabalhadores e as condições de trabalho
- c) A liberdade de expressão e a mídia
- d) A reforma do sistema escolar
5. Que mudança moral e social o autor destaca como consequência de maio de 68?
- a) O retorno à obediência e à ordem tradicional
- b) A autoridade parental reforçada e o respeito às hierarquias
- c) A passagem de uma sociedade baseada na autoridade para uma sociedade baseada no desejo e na liberdade individual
- d) O abandono completo da família e do casamento
Exercício 2: Compreensão detalhada (múltipla escolha)
1. Qual era a idade do autor no momento de maio de 68?
- a) Dezessete anos
- b) Dezenove anos
- c) Vinte e dois anos
- d) Vinte e cinco anos
2. Que aumento do salário mínimo foi obtido nos acordos de Grenelle?
- a) 20%
- b) 25%
- c) 35%
- d) 50%
3. Quem negociou os acordos de Grenelle pelo governo?
- a) Charles de Gaulle em pessoa
- b) Georges Pompidou, o primeiro-ministro
- c) Um ministro do Trabalho anônimo
- d) Os líderes estudantis diretamente
4. Em que ano a pílula anticoncepcional passou a ser coberta pela Seguridade Social?
- a) 1968
- b) 1970
- c) 1972
- d) 1974
5. Quantos grevistas aproximadamente participaram dos movimentos de maio de 68?
- a) Um milhão
- b) Três milhões
- c) Dez milhões
- d) Vinte milhões
Exercício 3: Correspondência de vocabulário
Ligue cada termo à sua definição correspondente.
| Termos | Definições |
|---|---|
| 1. Carcan | a) Contrato de trabalho por tempo indeterminado |
| 2. Barricada | b) Manifestação em que os trabalhadores param o trabalho para obter reivindicações |
| 3. Greve | c) Estrutura rígida e sufocante que limita a liberdade |
| 4. CDI | d) Obstrução feita com objetos para bloquear uma rua ou defender um lugar |
| 5. Sindicato | e) Organização que reúne trabalhadores para defender seus direitos |
| 6. Cassetete | f) Bastão usado pela polícia para bater |
| 7. Férias remuneradas | g) Dias de descanso pagos concedidos aos trabalhadores |
| 8. Depravados | h) Pessoas com comportamento moralmente condenável (segundo os valores tradicionais) |
| 9. Reivindicação | j) Pedido preciso, reclamação para obter uma mudança |
| 10. Seguridade Social (Sécu) | i) Sistema de proteção social francês |
Respostas esperadas: 1-c, 2-d, 3-b, 4-a, 5-e, 6-f, 7-g, 8-h, 9-j, 10-i
Exercício 4: Produção curta
Responda às perguntas seguintes em pelo menos 5-7 linhas cada.
Pergunta 1: Segundo o autor, maio de 68 foi uma vitória ou uma derrota política? Justifique sua resposta com elementos do texto.
Modelo de resposta:
Maio de 68 foi ao mesmo tempo uma vitória e uma derrota, dependendo da perspectiva. No plano político imediato, foi uma derrota: as eleições de junho de 1968 deram uma "vitória esmagadora" a de Gaulle. Porém, o autor afirma que nas mentalidades, na sociedade e nos corpos, foi uma vitória. Maio de 68 mudou a França profundamente: a liberdade individual avançou, os direitos dos trabalhadores aumentaram, e os valores tradicionais de obediência cederam espaço ao desejo e à autonomia pessoal. É, portanto, uma derrota eleitoral, mas uma vitória cultural e social.
Pergunta 2: Que exemplos concretos do texto mostram que o legado de maio de 68 ainda é visível na França atual? Dê pelo menos dois exemplos.
Modelo de resposta:
O autor dá vários exemplos atuais do legado de maio de 68. Primeiro, os comportamentos individuais: um jovem que recusa um contrato fixo pra viajar pela Ásia, uma mulher que deixa o marido aos cinquenta anos pra viver a própria vida, ou alguém que diz não ao patrão. Essas liberdades não seriam aceitas antes de 1968. Segundo, as mudanças familiares e sociais: os casais sem casamento formal com filhos, os casais homossexuais que se beijam na rua, as famílias recompostas. Antes de maio de 68, essas situações seriam escandalosas. Por fim, os direitos trabalhistas: a redução de jornada, os representantes sindicais, os acordos coletivos. Essas conquistas sociais vêm diretamente de 1968 e da correlação de forças criada pelos grevistas.
Gabaritos
Gabarito Exercício 1
| Questão | Resposta |
|---|---|
| 1 | b) Mostrar o legado de maio de 68 na sociedade francesa contemporânea |
| 2 | c) É uma metáfora para expressar o desejo de liberdade contra a ordem estabelecida |
| 3 | c) Os manifestantes, porque mudaram as mentalidades e a sociedade |
| 4 | b) Os direitos dos trabalhadores e as condições de trabalho |
| 5 | c) A passagem de uma sociedade baseada na autoridade para uma sociedade baseada no desejo e na liberdade individual |
Gabarito Exercício 2
| Questão | Resposta |
|---|---|
| 1 | b) Dezenove anos |
| 2 | c) 35% |
| 3 | b) Georges Pompidou, o primeiro-ministro |
| 4 | d) 1974 |
| 5 | c) Dez milhões |
Gabarito Exercício 3
| 1 | c |
| 2 | d |
| 3 | b |
| 4 | a |
| 5 | e |
| 6 | f |
| 7 | g |
| 8 | h |
| 9 | j |
| 10 | i |
Gabarito Exercício 4
Ver os modelos de resposta acima. As respostas devem:
- Para a Pergunta 1: Reconhecer a contradição aparente (derrota política/vitória social) e explicar com citações do texto
- Para a Pergunta 2: Fornecer pelo menos dois exemplos distintos (comportamentos individuais, mudanças familiares, ou direitos trabalhistas) com justificativa

