Luz do Brasil, luz da França — de Maneco Quinderé a Charlotte Perriand
— Bia: Camila, você conhece Charlotte Perriand? Minha professora falou dela, mas eu me perco um pouco… designer, arquiteta? E por que ela é tão importante para o Brasil?
— Camila: Ah, Perriand! Sim, ela trabalhou bastante com Le Corbusier. E ela veio ao Brasil nos anos 60, chegou até a influenciar nossos designers. Mas sabe, o diálogo vai nos dois sentidos…
— Bia: Como assim?
— Camila: Nossos criadores brasileiros — Sergio Rodrigues, os irmãos Campana — também marcaram a França. O design é uma ponte entre nossas duas culturas.
Esse diálogo transatlântico entre designers brasileiros e franceses atravessa todo o século XX. Vamos puxar o fio dessa história luminosa.

São 18h em um apartamento no Itaim Bibi, São Paulo. O sol desce por trás dos prédios, e uma luz âmbar começa a subir do teto, das estantes, do piso. de todo lugar e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Você não vê a lâmpada. Você vê a atmosfera. Essa é a assinatura de Maneco Quinderé, sem dúvida o maior designer de iluminação brasileiro de sua geração.
Hoje, um mergulho no mundo do design contemporâneo que atravessa o Atlântico: do Brasil, com seus mestres da luz e da madeira, à França, com seus arquitetos-artesãos do mobiliário. E acredite, esse diálogo merece toda a nossa atenção.
Maneco Quinderé, a luz como linguagem
Nascido no Rio de Janeiro, Manuel Ferreira Quinderé, chamado de "Maneco" desde criança, dedicou quarenta anos à luz. Quarenta. Primeiro no teatro e na moda (desfiles da Osklen, Ronaldo Fraga), depois no espaço residencial e em exposições. Ganhou quatro prêmios Shell, três Mambembe, três Sharp. Reconhecimentos que, no Brasil, têm peso considerável. Seu escritório, Maneco Quinderé & Associados, opera a partir do Rio e de São Paulo, e assina tanto interiores da CasaCor quanto pavilhões da ArtRio.
Sua filosofia cabe em uma frase: a luz não é uma ferramenta, é uma língua. "Um ambiente iluminado pode ser frio, cru, publicitário", ele costuma dizer. "Um ambiente vestido de luz é outra coisa. É uma emoção." Bom, dito assim, talvez soe um pouco poético, mas tecnicamente, o que isso quer dizer? Que a fonte é invisível. Sem spots que furam os olhos, sem lâmpadas expostas. Só o efeito. Uma espécie de mágica suave, digamos assim.
Ele trabalha muito com madeira brasileira recuperada, principalmente o pequi, uma árvore tropical de tronco nodoso que cresce no Cerrado, para seus luminários únicos, que combina com LEDs quentes (2700 K, muitas vezes menos). Resultado: objetos que parecem ter cem anos, mas embarcam a tecnologia mais recente.
Na ArtRio 2016, ele lançou uma linha inteira de lâmpadas de cerâmica + LED, esculpidas à mão em ateliês de Minas Gerais. O resultado: objetos que parecem primitivos, mas contêm a alta tecnologia da iluminação residencial contemporânea. Uma ambiguidade bem brasileira: o feito à mão que abriga o high-tech. Aliás, talvez seja isso que mais fascina nele: essa capacidade de fazer convivver dois mundos que a gente imagina, de costume, opostos.
Ele também colabora regularmente com os grandes diretores de teatro brasileiros na iluminação de seus espetáculos. Poucos designers, no mundo, têm sua versatilidade, do palco de teatro à mesinha de centro de uma sala em Ipanema. Sinceramente, essa amplitude é rara.
O design brasileiro contemporâneo — três escolas
Maneco não está sozinho. Ele faz parte de uma geração. a geração que globalizou o design brasileiro a partir dos anos 1990. Um panorama rápido (bom, rápido é modo de dizer).
Os irmãos Campana — o barroco tropical
Fernando e Humberto Campana, dois irmãos de São Paulo, são provavelmente os designers brasileiros mais conhecidos internacionalmente. A assinatura deles? Pegar materiais pobres e transformá-los em objetos suntuosos. Ou como transformar sucata em obra-prima.
A Poltrona Vermelha (1998), a peça icônica deles, é feita de um emaranhado de cordas de algodão vermelho vivo amarradas à mão sobre uma estrutura metálica. Parece um ninho. um ninho furioso e alegre. Hoje está exposta no MoMA de Nova York, o que não é pouca coisa. Eles também trabalham com pelúcias recicladas, papelão, brinquedos quebrados. cada objeto conta uma história da favela. Resumindo, é um barroco assumido, sensual, às vezes um pouco delirante.
Sergio Rodrigues: o pai do modernismo brasileiro
Sergio Rodrigues (1927-2014) é para o design brasileiro o que Charlotte Perriand é para o design francês. Sua poltrona Mole (1957), feita de uma estrutura em jacarandá e uma almofada de couro macio e generosa, definiu o que hoje chamamos de "mid-century tropical". Essa poltrona você vê em todo lugar hoje. em hotéis de design, no Instagram, em revistas. Seu ateliê foi assumido, após sua morte, por Jader Almeida, que continua a linha até hoje com uma fidelidade impressionante.
Etel Carmona e a nova geração
Etel Carmona, nascida em São Paulo, fundou a marca Etel em 1985. Ela revolucionou o mobiliário brasileiro trabalhando exclusivamente com madeira certificada FSC, das florestas amazônicas geridas de forma sustentável. Na época, isso era quase militante. Hoje, tornou-se um padrão (bom, entre as marcas sérias). Sua empresa representa hoje os criadores contemporâneos mais refinados do país: Claudia Moreira Salles, Ricardo Fasanello e o próprio Maneco Quinderé, cujos luminários ela edita. Uma verdadeira ponte, na verdade.
O design francês: quatro monumentos
Vamos atravessar o Atlântico. A França tem uma relação bem diferente com o design: mais industrial, mais militante, mais conceitual. E, às vezes, sejamos honestos, um pouco mais rígida também.
Charlotte Perriand, a mulher que colocou o corpo no centro
Charlotte Perriand (1903-1999) começou aos 24 anos no ateliê de Le Corbusier, onde desenhou a poltrona LC4 ("chaise longue") com ele: só que praticamente foi só ela. Le Corbusier, esse, assinava. Pois é. Ela revolucionou a ideia do mobiliário: um móvel deve se adaptar ao corpo humano, não constrangê-lo. Ela passou vários anos no Japão e depois no Vietnã, onde incorporou o artesanato local à sua prática. Uma vida inteira modernizando sem nunca renegar o saber-fazer. Aliás, é isso que a torna fascinante: essa capacidade de navegar entre a vanguarda modernista e o respeito profundo pela mão que fabrica.
Jean Prouvé, o arquiteto-engenheiro
Jean Prouvé (1901-1984), filho de um artista da escola de Nancy, era antes de tudo um serralheiro. Ele inventou uma maneira radicalmente francesa de fazer mobiliário: a partir de chapa dobrada e tubos de aço, como um engenheiro. ou melhor, como alguém que pensa estrutura antes de decoração. Sua Chaise Standard (1934), sua cadeira Antony (1954), sua Potence (luminária de parede, 1950) são hoje vendidas em leilões por preços absurdos. Dezenas de milhares de euros por uma cadeira dobrada, imagine só.
O que fascina em Prouvé é a honestidade estrutural: a cadeira Standard tem pernas traseiras triangulares mais robustas que as da frente, porque é ali que o peso se concentra. A forma revela o uso. Sem decoração. Sem enfeite. É bonita porque é justa.
Pierre Paulin. a suavidade pop
Pierre Paulin (1927-2009) é o designer que vestiu os palácios presidenciais franceses nos anos 1970. Georges Pompidou encomendou a ele o mobiliário de seu apartamento privado no Palácio do Eliseu, imagine a cena. Suas poltronas Tulip, Ribbon, Mushroom têm formas curvas, tensas, quase femininas. o exato oposto do modernismo rígido de Prouvé. É a French Touch pop do design, aquela que assume a cor, o estofamento, a sensualidade. Resumindo, Paulin trouxe de volta o corpo em uma época que adorava o metal frio.
India Mahdavi — a cor recuperada
Nascida em Teerã, formada em Paris, India Mahdavi é hoje a designer de interiores francesa mais internacional. Ela assinou o Sketch de Londres (o famoso restaurante todo rosa. você sabe, aquele que aparece em toda rede social), o Ladurée de Genebra, e uma centena de hotéis pelo mundo. Sua marca registrada: a cor que não tem medo de si mesma: rosa coral, amarelo mostarda, verde menta. Um jeito bem parisiense de sacudir o beige. E, sinceramente, faz muito bem.
O diálogo franco-brasileiro, mais intenso do que se imagina
França e Brasil têm um diálogo de design cruzado há quase um século. Três momentos-chave: e acredite, esses encontros mudaram o jogo dos dois lados.
1929. Le Corbusier no Rio. O mestre suíço-francês desembarca no Brasil e conhece Oscar Niemeyer, então jovem arquiteto. Ele dá uma conferência na Escola Nacional de Belas Artes. Toda a geração modernista brasileira, Niemeyer, Lúcio Costa, Affonso Reidy, sairá profundamente marcada. Sem essa viagem, não haveria Brasília em 1960. Bom, é simplificar um pouco as coisas (Brasília é um projeto tão político quanto arquitetônico), mas a influência é inegável.
1962; Charlotte Perriand faz o caminho inverso. Ela é convidada para São Paulo e o Rio para dar palestras e conhecer os artesãos locais. Passa horas observando as técnicas brasileiras de madeira maciça, de fibra trançada. Ela leva de volta várias peças, entre elas sua famosa estante "Rio". Aliás, encontramos nas criações dela após esse período um calor novo, uma sensualidade que tem gosto de Brasil.
Anos 1990-2000. O Brasil se exporta para Paris. Os Campana fazem suas primeiras exposições na Galerie Fiam. Sergio Rodrigues expõe no Museu de Artes Decorativas. E a Etel abre sua loja parisiense, na rue de Bourgogne, que se torna A vitrine do melhor design brasileiro contemporâneo na Europa. Uma verdadeira embaixada do mobiliário tropical, digamos assim.
O que essas duas escolas nos ensinam
O design brasileiro fala de matéria: a madeira, a fibra, a corda, a cerâmica. É quente, sensual, físico. Assume o traço da mão, e até mesmo o reivindica. Sente-se o gesto, adivinha-se o ateliê.
O design francês fala de estrutura: a chapa, o tubo, o conceito, o manifesto. É intelectual, militante, depurado. Assume a ideia, às vezes em detrimento do conforto (sejamos honestos, algumas cadeiras de Prouvé não são exatamente ninhos aconchegantes).
As duas escolas se encontram em um ponto: ambas recusam o puramente decorativo. Um objeto deve dizer algo. Um móvel deve sustentar um discurso. Nem pensar em mobiliar só por mobiliar.
E talvez seja essa a lição de Maneco Quinderé. Com ele, um lustre não é uma lâmpada. é uma frase. Ela diz: "acomode-se, o clima aqui é bom, a conversa pode começar." Sinceramente, é exatamente isso que se pede de um objeto bem projetado: que ele mude o clima de um ambiente sem nunca chamar atenção para si.
Como se vê, a luz também fala francês e português.
*— Lionel Philippe · alias "Sr. Bom-dia-Obrigado"***

