Jeannot du Panier — Marselha, o OM, e oito expressões pra testar no bar

Adieu ! Bienvenue chez moi.
Eu me chamo Jeannot. Nasci no bairro do Panier, em Marselha, o bairro mais antigo da cidade, aquele que sobe entre o Vieux-Port e a catedral da Major. Onde a roupa seca entre as janelas, onde os gatos conhecem todos os telhados, e onde as avós te chamam de "meu filho" mesmo que você nunca as tenha visto na vida. Aliás, principalmente se você nunca as viu, aliás.
A partir de hoje, vou te contar sobre minha cidade. A mais bonita da França — não discuto isso, não é um debate, viu. E vou te contar as expressões marselhesas: aquelas que você nunca vai aprender em nenhum manual de gramática (aliás, quem lê essas coisas?). E, sempre que possível, com o equivalente brasileiro, porque eu sei que você está me lendo do Rio, de São Paulo ou de Salvador.
Marselha não é uma cidade, é um jeito de ser

Marselha é a cidade mais antiga da França, com 2600 anos, fundada pelos gregos em 600 a.C. É também a mais miscigenada: italianos, corsos, armênios, argelinos, comorianos, senegaleses. Aqui, todo mundo fala com as mãos, todo mundo briga ao meio-dia e faz as pazes às 13h em volta de um pastis. Bom, às vezes é mais tipo 14h, não vamos exagerar, a gente também precisa de um tempinho pra gritar direito.
O Panier é o coração histórico. Um labirinto de vielas íngremes, fachadas ocre, coral, azul. Tem a Vieille Charité, tem o Refuge, tem meu bistrô preferido chamado Chez Étienne (uma pizza marselhesa metade anchova, metade queijo, você morre — bom, morre de prazer, viu, tem que deixar isso claro).
Ah, e já que estamos falando disso: o OM. O Olympique de Marseille. O melhor time de futebol do mundo. Isso também eu não discuto. A gente ganhou a Liga dos Campeões em 1993 — o único time francês que conseguiu isso. Pode conferir. Droit au but [Direto ao gol] é o nosso lema. E à jamais les premiers [pra sempre os primeiros] é o nosso orgulho. Bom, tá certo, ultimamente a gente nem sempre joga como campeão, mas a história continua sendo história.

Cinco expressões marselhesas e seu equivalente brasileiro
Vamos direto ao ponto. Cinco expressões que você vai ouvir na rua se chegar em Marselha amanhã de manhã. Bom, no fim coloquei mais que cinco, mas isso não é prova, viu.
1. « Peuchère »
Marselha: Peuchère, il a raté son bus !
Francês padrão: Le pauvre, il a raté son bus.
Brasil: Coitado dele, perdeu o ônibus.
Peuchère é a compaixão marselhesa. A gente fala isso o tempo todo, geralmente com um sorrisinho terno. É coitado em português, mas mais arredondado, mais longo, mais ensolarado. Repare bem a boca se arredondando: peuchèèèère. Sinceramente, é difícil de escrever, é mais um som do que uma palavra, tem que sair lá de dentro.
2. « Ça me fait le pastaga »
Marselha: Ce vin blanc, ça me fait le pastaga.
Francês padrão: Ce vin blanc, ça me fait de l'effet.
Brasil: Esse vinho branco, subiu na cabeça.
O pastaga é o pastis em linguagem informal. "Ça me fait le pastaga" quer dizer sobe na cabeça. Em bom português, diríamos subiu na cabeça ou deu uma zonzeira. Bom, é preciso dizer que em Marselha a gente bebe pastis a 30 graus no sol, então obviamente faz efeito, mesmo sem o vinho branco.
3. « Fada »
Marselha: T'es complètement fada, toi !
Francês padrão: Tu es complètement fou !
Brasil: Tu tá totalmente pirado(a) !
Fada vem do provençal, quer dizer literalmente tocado pelas fadas. É pirado ou doidão em português, mas sempre com carinho, nunca com maldade. Aliás, aqui a gente é quase todo mundo um pouco fada. É obrigatório, senão você não é marselhês.
4. « Cagole »
Marselha: Regarde-la avec ses talons, cette cagole !
Francês padrão: Regarde-la, cette fille un peu voyante avec ses talons.
Brasil: Olha ela toda arrumada com esse salto, essa patricinha !
Cagole é uma palavra bem marselhesa. É a garota muito arrumada, brilhante, um pouco exagerada, geralmente bronzeada, geralmente maquiada. Pode ser pejorativo OU carinhoso, tudo depende do tom. Em português, a patricinha talvez seja mais rica, mas a ideia de exuberância visual é a mesma. Enfim, não é necessariamente um xingamento, é sobretudo uma descrição… digamos, colorida.

5. « Emboucaner »
Marselha: Il m'emboucane depuis ce matin !
Francês padrão: Il m'ennuie/importune depuis ce matin.
Brasil: Ele tá me enchendo o saco desde de manhã.
Emboucaner é literalmente enfumaçar, fazer mau ar. Usado no sentido figurado, é incomodar, encher, insistir pesado. Em português brasileiro: encher o saco, torrar a paciência. Bom, aqui também se diz "casser les pieds" [quebrar os pés], mas emboucaner é mais visual — você imagina o cara fumando até você sufocar? Pois é.
6. « Dégun »
Marselha: Y a dégun ce soir dans le bar !
Francês padrão: Il n'y a personne ce soir dans le bar.
Brasil: Não tem ninguém no bar hoje à noite.
Dégun é ninguém, mas em marselhês. Vem do provençal degun (nenhum). A gente ouve isso em todo lugar: y a dégun, j'ai vu dégun, dégun est venu. É exatamente o ninguém brasileiro, mas com aquele sotaque que estala. E sinceramente, "dégun" soa muito melhor que "personne", né?
7. « Tarpin »
Marselha: Il fait tarpin chaud aujourd'hui !
Francês padrão: Il fait vraiment très chaud aujourd'hui.
Brasil: Tá fazendo um calor pra caramba hoje !
Tarpin quer dizer muito, bastante, demais. É a palavra preferida da moçada marselhesa (dos jovens, digamos). Tarpin bien, tarpin bon, tarpin de monde. Em português, é pra caramba, muito, ou até demais. Em Marselha, a gente não diz "muito", a gente diz "tarpin". É mais forte, estala mais. Bom, os parisienses riem quando ouvem a gente falando assim, mas eles dizem "trop" [demais], então sinceramente…
8. « Escagasser »
Marselha: Arrête, tu m'escagasses !
Francês padrão: Arrête, tu m'énerves / tu me casses les pieds !
Brasil: Para, você tá me quebrando / me enchendo !
Escagasser, literalmente, quer dizer quebrar, estragar. Usado no sentido figurado, é irritar, encher o saco, chatear. "Il m'escagasse depuis ce matin" = ele tá me enchendo desde de manhã. Primo próximo de emboucaner, mas com um toque a mais de violência física na imagem. Ainda assim é bem menos violento do que "vou quebrar sua cara" — não vamos misturar as coisas.

O que fica
Marselha fala alto, gesticula muito, exagera o tempo todo — meio como o Rio, meio como Salvador. Não é a França de Paris (graças a Deus), é a França do Mediterrâneo. Mais perto de Argel e de Nápoles do que de Lille. Aliás, se você perguntar a um marselhês onde fica Lille, tem boa chance de ele responder "lá no Norte" e parar por aí.
Se você passar por aqui, me escreve. Eu te chamo pro bar da esquina, a gente toma um pastis (ou dois, dependendo da hora e do calor), assiste a um jogo do OM no Vélodrome (65 mil pessoas cantando juntas, você nunca esquece — mesmo que fique surdo depois), e eu te apresento o Étienne e as pizzas dele.
E se você quiser falar sobre o OM contra o Flamengo, cuidado, isso pode tomar a noite inteira.
— Jeannot

