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HistoireNível C1
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A historiografia do tráfico negreiro: Pétré-Grenouilleau, Coquery-Vidrovitch (C1)

Em 2005, um debate historiográfico sacudiu a França: seria possível comparar os diferentes tráficos negreiros sem relativizar o horror da escravidão atlântica?

Assinado por·10 de julho de 2026·~7 min de leitura

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L'historiographie de la traite : Pétré-Grenouilleau, Coquery-Vidrovitch (C1)
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A historiografia do tráfico negreiro: Pétré-Grenouilleau, Coquery-Vidrovitch e os caminhos de uma história despaixonada

Em 2005, um historiador francês se viu processado na justiça por ter ousado escrever que o tráfico atlântico não era o único. Olivier Pétré-Grenouilleau, autor de uma obra de referência intitulada Les Traites négrières, tinha acabado de desencadear, sem querer, uma tempestade memorial cujos ecos ainda ressoam hoje. No centro do debate: a legitimidade de uma história comparada dos tráficos — atlântico, oriental, intra-africano — e o risco de instrumentalização ideológica da pesquisa acadêmica.

Essa controvérsia não é apenas uma briga de historiadores. Ela levanta uma questão espinhosa: como escrever a história da escravidão sem minimizar as responsabilidades europeias, mas dando conta, ao mesmo tempo, da complexidade global do fenômeno? Os trabalhos recentes de Catherine Coquery-Vidrovitch, de Éric Mesnard, ou ainda do brasileiro Luiz Felipe de Alencastro desenham os contornos de uma historiografia exigente, que recusa tanto o anacronismo moral quanto a amnésia seletiva.

O livro que desencadeou tudo: Les Traites négrières (2004)

Olivier Pétré-Grenouilleau publica em 2004 uma síntese monumental de mais de 450 páginas, premiada com o prêmio do Senado francês de livro de história. A ambição? Abarcar todos os tráficos negreiros ao longo da história: o tráfico transatlântico (séculos XV-XIX), o tráfico oriental com destino ao mundo árabe-muçulmano (séculos VII-XX), e os tráficos intra-africanos. A obra compila os dados quantitativos disponíveis, cruza fontes árabes, europeias e africanas, e propõe uma leitura de historiador, não de promotor de justiça.

O tom é sóbrio, o método rigoroso. Pétré-Grenouilleau lembra que cerca de 11 milhões de africanos foram deportados para as Américas, 17 milhões para as terras do islã, e que milhões de outros foram escravizados dentro do próprio continente africano. Esses números, já conhecidos dos especialistas, não visam «diluir» a responsabilidade europeia, mas recolocar o tráfico atlântico dentro de um sistema escravista global e milenar.

O problema surge em junho de 2005, durante uma entrevista ao Journal du dimanche. Questionado sobre as «responsabilidades» do tráfico, Pétré-Grenouilleau declara que « les traites négrières ne sont pas des génocides » no sentido jurídico do termo, e que é cientificamente desonesto ocultar os tráficos não europeus. Alguns dias depois, o Coletivo dos Antilhanos, Guianenses, Reunioneses e Mahorenses (Collectif DOM) o processa por «contestação de crime contra a humanidade», invocando a lei Gayssot de 1990. O caso ganha grande repercussão. Dezenove historiadores renomados — entre eles Pierre Nora, René Rémond, Jean-Pierre Azéma — assinam um abaixo-assinado reivindicando a «liberdade para a história». A denúncia é finalmente retirada, mas o mal-estar permanece.

Catherine Coquery-Vidrovitch: a longa duração africana

Especialista reconhecida da África subsaariana, Catherine Coquery-Vidrovitch dedicou parte de sua carreira a documentar os tráficos a partir da África, e não apenas em direção à América ou ao Magrebe. Em Être esclave en Afrique (2013, coordenado com Myriam Cottias e Éric Mesnard), ela lembra uma realidade frequentemente silenciada: a escravidão doméstica africana era anterior à chegada dos europeus e sobreviveu à abolição formal do tráfico.

Coquery-Vidrovitch desconfia dos anacronismos: comparar a escravidão «doméstica» saeliana — na qual os cativos podiam, às vezes, chegar a posições de poder — com a escravidão de plantação nas Antilhas é uma impostura intelectual. Mas ela também se recusa a apagar essa dimensão: os reinos do Daomé, do Kongo, ou dos Achantis alimentaram maciçamente o tráfico atlântico, não por «cumplicidade passiva», mas por cálculo econômico e político.

Esse posicionamento equilibrado contrasta com os discursos militantes que gostariam de fazer do tráfico um crime exclusivamente europeu. Coquery-Vidrovitch escreve: « L'histoire n'est pas une comptabilité morale. Elle est une enquête exigeante sur ce qui s'est passé. » Frase que poderia servir de lema para toda a historiografia contemporânea do tráfico negreiro.

Luiz Felipe de Alencastro: a conexão Brasil-Angola

Muitas vezes ignorado na França, o historiador brasileiro Luiz Felipe de Alencastro publicou em 2000 uma obra decisiva: O trato dos viventes. Nela, ele demonstra que a colonização do Brasil e o tráfico negreiro atlântico formam um sistema único, articulado em torno do eixo Rio de Janeiro–Luanda. Segundo ele, o Brasil colonial não é apenas um «destino» para os cativos africanos: é uma entidade bipolar, cujo «centro de gravidade econômico» se situa em Angola.

Alencastro estima em 5 milhões o número de africanos deportados para o Brasil entre 1550 e 1850, ou seja, quase 45% do total transatlântico. Ele insiste no papel dos pombeiros — intermediários africanos ou mestiços — e dos sertanejos brasileiros que, já no século XVII, organizavam expedições de captura no interior das terras angolanas. Essa perspectiva «Sul-Atlântica» rompe com uma visão excessivamente eurocêntrica do tráfico. Ela também convida a pensar as continuidades: o Brasil só aboliu a escravidão em 1888, ou seja, 60 anos depois da França, 23 anos depois dos Estados Unidos.

Éric Mesnard e a pedagogia do debate

Professor de história no ensino médio e depois formador de professores, Éric Mesnard coordenou diversas obras pedagógicas sobre o ensino do tráfico e da escravidão. Em Enseigner l'histoire de l'abolition de l'esclavage (2009), ele defende uma abordagem «descentrada»: mostrar aos alunos que o tráfico não é nem um acidente da história europeia, nem um complô planejado, mas um sistema econômico que se desdobrou em quatro continentes durante quatro séculos.

Mesnard defende uma linha intermediária: sim, é preciso ensinar os tráficos oriental e intra-africano; não, isso em nada relativiza a singularidade do sistema escravista colonial, fundado na racialização e na exploração em massa. Ele lembra que, em 1848, por ocasião da abolição francesa, Victor Schœlcher estimava em 250 mil o número de escravos apenas nas colônias francesas. Um número que, em relação à população total da França metropolitana (35 milhões), dá uma ideia do peso econômico da escravidão.

A Rota do Escravo: um projeto da UNESCO sob tensão

Lançado em 1994, o projeto «A Rota do Escravo» visa documentar, comemorar e ensinar a história dos tráficos negreiros. Sob a coordenação da UNESCO, ele permitiu financiar pesquisas na África Ocidental, no Caribe, no Brasil, nos Estados Unidos. Mas o projeto não está isento de tensões políticas.

Alguns países africanos relutam em documentar sua participação ativa no tráfico: no Benim, o «memorial de Ouidah» evoca pudicamente os «intermediários locais» sem nomear os reis do Daomé. Em sentido oposto, associações antilhanas acusam a UNESCO de «afogar» o tráfico atlântico em um relato globalizado que diluiria as responsabilidades europeias. O debate continua acirrado: é preciso uma memória plural ou uma memória hierarquizada, na qual o tráfico transatlântico permaneceria o «crime maior»?

É preciso «colocar em balança» os diferentes tráficos?

A pergunta que incomoda. Olivier Pétré-Grenouilleau foi acusado de querer «relativizar» o tráfico atlântico ao mencionar os 17 milhões de cativos deportados para o mundo muçulmano. Mas essa acusação se sustenta?

Vários argumentos favorecem uma abordagem diferenciada sem hierarquização moral:

  1. Duração e amplitude: o tráfico oriental se estende por treze séculos (VII-XX), contra quatro para o tráfico atlântico (XV-XIX). Mas o tráfico atlântico foi quantitativamente mais intenso.
  2. Racialização: o tráfico atlântico se baseia em uma ideologia racial (o Código Negro de 1685 equipara o escravo a um «móvel»), ausente do tráfico muçulmano clássico, no qual a escravidão é um estatuto jurídico, não racial.
  3. Vestígios demográficos: no Brasil, 56% da população se declara negra ou parda hoje. No Magrebe e no Oriente Médio, os descendentes de escravos negros são quase invisíveis. Por quê? Mortalidade mais elevada, castração dos homens, baixa reprodução em cativeiro.

Escrever a história de todos os tráficos não é, portanto, um gesto de «colocar em balança», mas um imperativo científico. Desde que jamais se perca de vista as singularidades de cada sistema. Catherine Coquery-Vidrovitch diz isso melhor do que ninguém: « L'histoire n'absout ni ne condamne. Elle explique. »

Bibliografia comentada

TítuloComentário
Olivier Pétré-Grenouilleau, Les Traites négrières (Gallimard, 2004)Síntese magistral e controversa. Abordagem quantitativa, perspectiva global. Indispensável apesar (ou graças) à polêmica.
Catherine Coquery-Vidrovitch, Myriam Cottias, Éric Mesnard (dir.), Être esclave en Afrique (La Découverte, 2013)Coletânea multidisciplinar. Excelente contraponto às visões binárias. Desconstrói mitos sem cair no revisionismo.
Luiz Felipe de Alencastro, O trato dos viventes (Companhia das Letras, 2000)Fundamental para entender o eixo Brasil-Angola. Ainda não traduzido para o francês (lacuna editorial incompreensível).
Hugh Thomas, La Traite des Noirs (Robert Laffont, 2006)Monumento anglo-saxão de 900 páginas. Narrativa detalhada, quase romanesca. Traduzido do inglês, denso mas legível.
Éric Mesnard, Marie-Albane de Suremain (dir.), Enseigner l'histoire de l'abolition (CRDP Créteil, 2009)Obra pedagógica. Propõe sequências prontas para o ensino médio. Útil para professores, mas também para qualquer leitor que queira estruturar seu pensamento.

A história do tráfico negreiro continua sendo um campo de batalha memorial tanto quanto um objeto de pesquisa. Entre a amnésia cúmplice e a instrumentalização vitimista, os historiadores traçam um caminho estreito: o do rigor documental, da contextualização fina, e da recusa de qualquer hierarquia moral a priori. O debate francês de 2005 deixou marcas. Mas ele também esclareceu os desafios: é possível — é preciso — escrever uma história mundial do tráfico sem, por isso, apagar a singularidade do crime escravista colonial. É essa exigência que carregam, cada um à sua maneira, Pétré-Grenouilleau, Coquery-Vidrovitch, Alencastro e tantos outros. Uma exigência que nos obriga: leitores, cidadãos, herdeiros de um passado que ninguém pode desfazer, mas que cada um pode compreender.

— Vincent · alias « Monsieur Merci Bonjour »

Leitura livre para os Soltos. Alguns artigos são reservados aos Soltos+ — é o que permite que este blog exista. Ver planos →

Revisado por Vincent, nosso serial-corretor · 20 de julho de 2026

#Histoire#Historiographie#Traite négrière#Alencastro#C1#France#Brésil#Vincent
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