Duas vizinhas em Paris — Bia e Camila: a Sécu, o cigarro a 12 €, a goiabada ausente e outros choques dos nossos primeiros anos (A2-B1)
Nível QECR: A2 → B1 · Uma crônica a duas vozes. Bia e
Camila, duas brasileiras que dividem o mesmo apartamento
no Marais há anos, sentam-se num sábado de manhã diante de um
café com leite e relembram seus primeiros choques em Paris. Um
diálogo vivo, bilíngue, cheio de carinho e deboche.
« Toma um café com a gente, vamos te contar tudo que
ninguém conta pros brasileiros que chegam. »
O cenário
Um sábado de manhã em outubro. Na pequena cozinha de um terceiro
andar no Marais, duas canecas fumegam sobre uma mesa de madeira. Um prato
de pão de queijo ainda quente, saído do forno há cinco
minutos.
- Bia, 38 anos, cabeleireira, salão na rua Saint-Maur (11º). Em Paris
- Camila, 36 anos, enfermeira no hospital Saint-Louis (10º).
Elas se conhecem desde o primeiro dia na França — se
encontraram na prefeitura, na fila para pegar o recibo do visto de
residência. O resto é história.
Capítulo 1: A Sécu, esse bicho estranho
BIA (de boca cheia de pão de queijo): Camila, lembra da
primeira vez que a gente foi na Sécu?
CAMILA — Como esquecer? Passamos quatro horas lá,
com pastas de dez centímetros de espessura, e no final
saímos sem ter entendido o que a gente tinha assinado.
BIA: Achei que a moça me odiava pessoalmente.
CAMILA: Ela não te odiava, Bia. Ela odiava todo mundo
igualmente. É assim que a Sécu funciona.
BIA: Explica pra galera, você que trabalha no hospital.
CAMILA: A Sécurité sociale — a « Sécu » — é o
sistema público de saúde francês. Todo mundo contribui (paga
um percentual do salário) e todo mundo se beneficia:
consultas, remédios, hospital, exames… quase tudo é
reembolsado.
BIA: Mas não imediatamente!
CAMILA — Exato. Você adianta o dinheiro, depois a Sécu te
reembolsa (geralmente 70 %), e um plano complementar
cobre eventualmente o resto (os 30 %).
BIA: Um quê?
CAMILA: Um plano complementar (mutuelle), é um seguro saúde
complementar, privado. Muitos empregadores oferecem um.
BIA: No Brasil, a gente conhece o SUS
(Sistema Único de Saúde) — gratuito, universal, direto. Aqui é
quase gratuito, mas indireto. Você tem que adiantar, preencher,
mandar, esperar o reembolso. É muito burocrático.
CAMILA: Um conselhinho pros brasileiros que acabaram de chegar:
baixa o app Ameli (o da Sécu) já no primeiro dia. Poupa
horas.
Capítulo 2: O cigarro a 12 €
BIA (que nunca fumou): Camila, você ainda fuma?
CAMILA: Parei quando vi o preço do maço subir
de 5 € pra 12 €. Obrigada, Estado francês.
BIA: Em 2003, o maço de Marlboro custava 5 euros. Em
2026, está a 12,50 €.
CAMILA: Multiplicou por dois e meio em vinte anos. Uma
política clara de saúde pública via bolso.
BIA — No Brasil, um maço custa cerca de 10 reais, ou seja
1,60 €. O choque é brutal quando você chega.
CAMILA: E vale saber que quase todo o aumento é imposto,
80 % do preço do maço na França é taxa.
BIA: O café brasileiro, por outro lado, é mais barato do que
em Paris nos supermercados. Tenho um trauma com isso, choro
toda vez que vejo o pacote a 5 € no Franprix.
CAMILA: Cada país tem seu luxo e seu barato. Em
Paris, são o vinho, o queijo, o pão, a padaria da esquina.
Em São Paulo, são a carne, a gasolina, o café, o açaí.
Capítulo 3: A ausência de goiabada nos supermercados
BIA: O choque mais difícil pra mim foi a ausência
de goiabada.
CAMILA: A goiabada! Aquela pasta de goiaba vermelho escuro,
doce, indispensável num doce « Romeu e Julieta »
com queijo fresco…
BIA — Juro, na primeira vez que fui no Monoprix e não
achei, quase voltei pro Brasil no mesmo dia.
CAMILA: Hoje você consegue achar, no Le Comptoir
Brésilien (no 9º), na Coisas do Brasil online, ou
em algumas mercearias portuguesas do 19º. Mas nos
supermercados franceses comuns: ausente.
BIA: Outras ausências dolorosas no Franprix:
- o pão de queijo (exceto congelado, em algumas redes)
- a farofa
- o guaraná (exceto em lojas latinas)
- o queijo minas frescal (substituir pela « ricotta »
fresca italiana: melhor compromisso)
- o coração de galinha (não tem nos supermercados: no
avícola, às vezes)
CAMILA — O supermercado francês é bem europeu. A gente
precisa aprender a substituir, ou a importar (pede pra sua
mãe trazer uma mala cheia a cada viagem).
Capítulo 4: A escola francesa, esse balé coreografado
BIA — Você me contou, outro dia, sobre a escola do seu
sobrinho. Explica.
CAMILA: Meu sobrinho tem 8 anos, mora em Paris com minha
irmã. A escola primária francesa é bem diferente do
Brasil.
BIA: Como assim?
CAMILA: Três coisas que chocam todos os pais
brasileiros:
- A cantina. As crianças almoçam na escola, todas
- As férias. O ano letivo francês tem cinco períodos de
- O presente coletivo. No fim do ano, dá-se um presentinho
BIA: E o calendário escolar começa em setembro, não
em fevereiro. Isso muda tudo.
CAMILA — Dica prática: guarda o app Pronote. É a agenda
digital usada pela maioria das escolas públicas e
privadas: notas, deveres, faltas, recados pros pais.
Capítulo 5: Outros três micro-choques
BIA (conta nos dedos):
- Pagar no restaurante: na França, raramente se divide
- O beijo no rosto: dois beijinhos, no rosto, entre
- O tu/você formal: trata-se por você formal (vous) o
CAMILA — E o pior de tudo: o mês de novembro. Chove sem
parar, escurece às 17h, e você entende por que os
franceses são rabugentos. Você começa a ficar também.
Capítulo 6 — O que a gente não trocaria por nada no mundo
BIA: E mesmo assim, a gente fica.
CAMILA — Claro que a gente fica. Porque Paris nos ensinou
outra coisa: a lentidão, o vinho ao meio-dia, os museus gratuitos no
primeiro domingo do mês, o padeiro que te dá bom dia, o
metrô da Chemin Vert às 23h que cheira a outono, as manifestações
que terminam em festa.
BIA: E principalmente: uma outra língua que a gente fez
sua.
CAMILA: O francês é nossa segunda pele agora. Uma pele
que às vezes aperta, mas que esquenta na maioria das vezes.
BIA (ela ri): Bom, me passa um pão de queijo?
CAMILA — Pega. Ainda tem mais oito.
📚 Mini-léxico da crônica
| Francês | 🇧🇷 Português (BR) |
|---|---|
| la Sécurité sociale (la Sécu) | a Previdência social pública / SUS francês |
| cotiser | contribuir |
| un remboursement | um reembolso |
| une mutuelle | um seguro saúde complementar |
| une infirmière / un infirmier | uma enfermeira / um enfermeiro |
| une file d'attente | uma fila |
| un récépissé | um comprovante provisório |
| un titre de séjour | uma autorização de residência |
| un supermarché | um supermercado |
| une épicerie | um mercadinho |
| la cantine | a cantina / o refeitório escolar |
| des vacances scolaires | férias escolares |
| grognon(ne) | rabugento(a) |
| l'addition | a conta |
| tutoyer / vouvoyer | tratar por tu / por você formal |
| ça fait gagner du temps | poupa tempo |
Compreensão
1. Quem é Camila? Onde ela trabalha? Há quanto tempo
ela está em Paris? → ______
2. Explique a diferença entre o SUS brasileiro e a
Sécu francesa. → ______
3. Por que o maço de cigarro custa 12,50 € na
França em 2026, segundo Camila? → ______
4. Cite três produtos brasileiros que não se encontram
facilmente num supermercado francês. → ______
5. Cite três diferenças entre a escola primária francesa
e a escola brasileira, segundo Camila. → ______
6. Explique a diferença cultural na divisão da
conta no restaurante, entre a França e o Brasil. → ______
Gabarito
- Camila é enfermeira no hospital Saint-Louis (10º
- SUS: sistema público universal, direto, gratuito
- Porque 80 % do preço do maço é composto de impostos,
- Exemplos: goiabada, pão de queijo, farofa, guaraná, queijo
- Três diferenças: a cantina estruturada (entrada / prato /
- Na França, cada um paga sua parte exata (cálculo
— Bia & Camila · duas vizinhas em Paris

