Sessão de conversação gratuita · 45 min · em francês
Voltar
CultureNível B1
Traduzido para PT-BR
~8 min de leitura

Duas vizinhas em Paris — Bia e Camila: a Sécu, o cigarro a 12 €, a goiabada ausente e outros choques dos nossos primeiros anos (A2-B1)

« Crônica conjunta · Marais · sábado de manhã »

Bia e Camila, duas brasileiras que dividem apartamento no Marais há anos, tomam café num sábado de manhã e relembram os primeiros choques culturais em Paris.

8 min de leitura · O essencial em 30 segundos

  • Bia e Camila, duas brasileiras no Marais há 12-15 anos, compartilham seus primeiros choques em Paris em diálogo vivo e carinhoso.
  • Seguridade Social francesa: contribuição obrigatória, reembolso de 70% após adiantamento de dinheiro, requer seguro complementar para os 30% restantes.
  • Cigarros: 5 € em 2003, 12,50 € em 2026; 80% do preço é imposto, política de saúde pública intencional do governo francês.
  • Goiabada ausente em supermercados franceses clássicos; encontrar produtos brasileiros em Comptoir Brésilien (9º) ou mercearias portuguesas do 19º.
Assinado por·6 de julho de 2026·~8 min de leitura

Também disponível em

Français

Deux voisines à Paris — Bia et Camila : la Sécu, le tabac à 12 €, la goiabada absente et autres chocs de nos premières années (A2-B1)
audio · 🎧
Ouvir o artigo

Leitura por voz sintetizada · voz francesa natural🎧 Seja o primeiro a ouvir

O áudio não é 100 % confiável — algumas palavras podem soar mal — mas segue o mais próximo possível do texto escrito acima.

Duas vizinhas em Paris — Bia e Camila: a Sécu, o cigarro a 12 €, a goiabada ausente e outros choques dos nossos primeiros anos (A2-B1)

Nível QECR: A2 → B1 · Uma crônica a duas vozes. Bia e
Camila, duas brasileiras que dividem o mesmo apartamento
no Marais há anos, sentam-se num sábado de manhã diante de um
café com leite e relembram seus primeiros choques em Paris. Um
diálogo vivo, bilíngue, cheio de carinho e deboche.
« Toma um café com a gente, vamos te contar tudo que
ninguém conta pros brasileiros que chegam. »

O cenário

Um sábado de manhã em outubro. Na pequena cozinha de um terceiro
andar no Marais, duas canecas fumegam sobre uma mesa de madeira. Um prato
de pão de queijo ainda quente, saído do forno há cinco
minutos.

  • Bia, 38 anos, cabeleireira, salão na rua Saint-Maur (11º). Em Paris
há quinze anos.
  • Camila, 36 anos, enfermeira no hospital Saint-Louis (10º).
Em Paris há doze anos. Nascida em São Paulo.

Elas se conhecem desde o primeiro dia na França — se
encontraram na prefeitura, na fila para pegar o recibo do visto de
residência. O resto é história.

Capítulo 1: A Sécu, esse bicho estranho

BIA (de boca cheia de pão de queijo): Camila, lembra da
primeira vez que a gente foi na Sécu?

CAMILA — Como esquecer? Passamos quatro horas lá,
com pastas de dez centímetros de espessura, e no final
saímos sem ter entendido o que a gente tinha assinado.

BIA: Achei que a moça me odiava pessoalmente.

CAMILA: Ela não te odiava, Bia. Ela odiava todo mundo
igualmente.
É assim que a Sécu funciona.

BIA: Explica pra galera, você que trabalha no hospital.

CAMILA: A Sécurité sociale — a « Sécu » — é o
sistema público de saúde francês. Todo mundo contribui (paga
um percentual do salário) e todo mundo se beneficia:
consultas, remédios, hospital, exames… quase tudo é
reembolsado
.

BIA: Mas não imediatamente!

CAMILA — Exato. Você adianta o dinheiro, depois a Sécu te
reembolsa (geralmente 70 %), e um plano complementar
cobre eventualmente o resto (os 30 %).

BIA: Um quê?

CAMILA: Um plano complementar (mutuelle), é um seguro saúde
complementar
, privado. Muitos empregadores oferecem um.

BIA: No Brasil, a gente conhece o SUS
(Sistema Único de Saúde) — gratuito, universal, direto. Aqui é
quase gratuito, mas indireto. Você tem que adiantar, preencher,
mandar, esperar o reembolso. É muito burocrático.

CAMILA: Um conselhinho pros brasileiros que acabaram de chegar:
baixa o app Ameli (o da Sécu) já no primeiro dia. Poupa
horas.

Capítulo 2: O cigarro a 12 €

BIA (que nunca fumou): Camila, você ainda fuma?

CAMILA: Parei quando vi o preço do maço subir
de 5 € pra 12 €. Obrigada, Estado francês.

BIA: Em 2003, o maço de Marlboro custava 5 euros. Em
2026, está a 12,50 €.

CAMILA: Multiplicou por dois e meio em vinte anos. Uma
política clara de saúde pública via bolso.

BIA — No Brasil, um maço custa cerca de 10 reais, ou seja
1,60 €. O choque é brutal quando você chega.

CAMILA: E vale saber que quase todo o aumento é imposto,
80 % do preço do maço na França é taxa.

BIA: O café brasileiro, por outro lado, é mais barato do que
em Paris
nos supermercados. Tenho um trauma com isso, choro
toda vez que vejo o pacote a 5 € no Franprix.

CAMILA: Cada país tem seu luxo e seu barato. Em
Paris, são o vinho, o queijo, o pão, a padaria da esquina.
Em São Paulo, são a carne, a gasolina, o café, o açaí.

Capítulo 3: A ausência de goiabada nos supermercados

BIA: O choque mais difícil pra mim foi a ausência
de goiabada
.

CAMILA: A goiabada! Aquela pasta de goiaba vermelho escuro,
doce, indispensável num doce « Romeu e Julieta »
com queijo fresco…

BIA — Juro, na primeira vez que fui no Monoprix e não
achei, quase voltei pro Brasil no mesmo dia.

CAMILA: Hoje você consegue achar, no Le Comptoir
Brésilien
(no 9º), na Coisas do Brasil online, ou
em algumas mercearias portuguesas do 19º. Mas nos
supermercados franceses comuns: ausente.

BIA: Outras ausências dolorosas no Franprix:

  • o pão de queijo (exceto congelado, em algumas redes)
  • a farofa
  • o guaraná (exceto em lojas latinas)
  • o queijo minas frescal (substituir pela « ricotta »

fresca italiana: melhor compromisso)

  • o coração de galinha (não tem nos supermercados: no

avícola, às vezes)

CAMILA — O supermercado francês é bem europeu. A gente
precisa aprender a substituir, ou a importar (pede pra sua
mãe trazer uma mala cheia a cada viagem)
.

Capítulo 4: A escola francesa, esse balé coreografado

BIA — Você me contou, outro dia, sobre a escola do seu
sobrinho. Explica.

CAMILA: Meu sobrinho tem 8 anos, mora em Paris com minha
irmã. A escola primária francesa é bem diferente do
Brasil.

BIA: Como assim?

CAMILA: Três coisas que chocam todos os pais
brasileiros
:

  1. A cantina. As crianças almoçam na escola, todas
juntas, um cardápio bem estruturado: entrada, prato, queijo, sobremesa. Servem vinho? Não, mas servem peixe empanado, espinafre, coisas que seu filho nunca viu no Brasil.
  1. As férias. O ano letivo francês tem cinco períodos de
férias por ano: Toussaint (2 sem.), Natal (2 sem.), inverno (2 sem.), Páscoa (2 sem.), verão (2 meses). No total: 16 semanas de férias. É considerável.
  1. O presente coletivo. No fim do ano, dá-se um presentinho
pra professora ou professor — geralmente coletivo (um presente comum financiado por toda a turma). Essa tradição não existe no Brasil.

BIA: E o calendário escolar começa em setembro, não
em fevereiro. Isso muda tudo.

CAMILA — Dica prática: guarda o app Pronote. É a agenda
digital
usada pela maioria das escolas públicas e
privadas: notas, deveres, faltas, recados pros pais.

Capítulo 5: Outros três micro-choques

BIA (conta nos dedos):

  • Pagar no restaurante: na França, raramente se divide
a conta igualzinho pra todo mundo. Cada um paga sua parte exata: é o cálculo detalhado no final. No Brasil, divide-se em partes iguais, mesmo que um tenha comido mais que o outro.
  • O beijo no rosto: dois beijinhos, no rosto, entre
desconhecidos. Choque cultural pros brasileiros acostumados com o abraço.
  • O tu/você formal: trata-se por você formal (vous) o
médico, o professor, o gerente do banco, mesmo que sejam mais novos que você. No Brasil, usa-se você com quase todo mundo.

CAMILA — E o pior de tudo: o mês de novembro. Chove sem
parar, escurece às 17h, e você entende por que os
franceses são rabugentos
. Você começa a ficar também.

Capítulo 6 — O que a gente não trocaria por nada no mundo

BIA: E mesmo assim, a gente fica.

CAMILA — Claro que a gente fica. Porque Paris nos ensinou
outra coisa
: a lentidão, o vinho ao meio-dia, os museus gratuitos no
primeiro domingo do mês, o padeiro que te dá bom dia, o
metrô da Chemin Vert às 23h que cheira a outono, as manifestações
que terminam em festa.

BIA: E principalmente: uma outra língua que a gente fez
sua
.

CAMILA: O francês é nossa segunda pele agora. Uma pele
que às vezes aperta, mas que esquenta na maioria das vezes.

BIA (ela ri): Bom, me passa um pão de queijo?

CAMILA — Pega. Ainda tem mais oito.

📚 Mini-léxico da crônica

Francês🇧🇷 Português (BR)
la Sécurité sociale (la Sécu)a Previdência social pública / SUS francês
cotisercontribuir
un remboursementum reembolso
une mutuelleum seguro saúde complementar
une infirmière / un infirmieruma enfermeira / um enfermeiro
une file d'attenteuma fila
un récépisséum comprovante provisório
un titre de séjouruma autorização de residência
un supermarchéum supermercado
une épicerieum mercadinho
la cantinea cantina / o refeitório escolar
des vacances scolairesférias escolares
grognon(ne)rabugento(a)
l'additiona conta
tutoyer / vouvoyertratar por tu / por você formal
ça fait gagner du tempspoupa tempo

Compreensão

1. Quem é Camila? Onde ela trabalha? Há quanto tempo
ela está em Paris? → ______

2. Explique a diferença entre o SUS brasileiro e a
Sécu francesa. → ______

3. Por que o maço de cigarro custa 12,50 € na
França em 2026, segundo Camila? → ______

4. Cite três produtos brasileiros que não se encontram
facilmente num supermercado francês. → ______

5. Cite três diferenças entre a escola primária francesa
e a escola brasileira, segundo Camila. → ______

6. Explique a diferença cultural na divisão da
conta no restaurante, entre a França e o Brasil. → ______

Gabarito

  1. Camila é enfermeira no hospital Saint-Louis (10º
arrondissement de Paris). Está em Paris há 12 anos, nascida em São Paulo.
  1. SUS: sistema público universal, direto, gratuito
no ponto de atendimento. Sécu: sistema público de contribuição, reembolso depois do pagamento, complementado às vezes por um plano complementar privado.
  1. Porque 80 % do preço do maço é composto de impostos,
propositalmente altos pelo Estado francês numa política de saúde pública (desestimular o fumo pelo preço).
  1. Exemplos: goiabada, pão de queijo, farofa, guaraná, queijo
minas frescal, coração de galinha.
  1. Três diferenças: a cantina estruturada (entrada / prato /
queijo / sobremesa); cinco períodos de férias = 16 semanas por ano; o presente coletivo pra professora no fim do ano; o ano letivo que começa em setembro.
  1. Na França, cada um paga sua parte exata (cálculo
individual). No Brasil, divide-se em partes iguais, mesmo que um tenha comido mais que o outro, é cultural e considerado mais fraterno.
— Bia & Camila · duas vizinhas em Paris

Leitura livre para os Soltos. Alguns artigos são reservados aos Soltos+ — é o que permite que este blog exista. Ver planos →

#Bia#Camila#Chronique#Culture#Brésil#Paris#Marais#Sécu#Sécurité sociale#École française#Vie quotidienne#Choc culturel#Brésiliens à Paris#A2#B1#Dialogue#Lionel#Personnages#Diversité du français
PDF · FR PDF · PT
Carnet de mots

Retenez le vocabulaire de cet article.

Créez un compte élève (gratuit, 50 cartes offertes) et laissez la méthode de répétition espacée FSRS vous rappeler ces mots au bon moment.

Sua dose semanal de francês

3 artigos escolhidos para seu nível, toda quarta-feira. Sem spam, cancele quando quiser.

Une question sur cet article ?

Demande à Vibe, notre assistant francophone

Sua busca Vibe turbinada pela Mistral AI

Compartilhar este artigo
O Guia

Uma seleção editorial de livros, sites e ferramentas úteis para ir mais fundo.

Alguns links abaixo são links de afiliados. Só recomendamos o que usamos ou verificamos.

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar este artigo.

Compartilhar
Este artigo ajudou você ?