Chez Lulu — vinhos naturais baratos, lojas de vinho não turísticas, e o vocabulário completo do bar

Oi, aqui é o Lulu falando
Hoje o Lionel me passou o teclado. Ele disse: « Lulu, você vai falar de vinhos, lojas de vinho e vocabulário de balcão. » Fechado. Senta aí, vou te servir uma taça.
Aqui em casa, a carta de vinhos cabe numa lousinha. Dez nomes. Dez produtores. Sempre entre 12 e 32 € a garrafa. Nunca grande distribuição, nunca química. Só vinho natural ou orgânico de pequenos produtores.
E sabe de uma coisa? Meus clientes nem pedem mais a carta: eles perguntam « O que você está bebendo hoje, Lulu? »
Essa é a melhor pergunta do mundo.
Vinho natural, vinho orgânico: qual a diferença?
O vinho natural é feito de uva orgânica (ou biodinâmica) vinificada sem adição de leveduras industriais, com muito pouco ou nenhum sulfito. O vinho fermenta com suas leveduras indígenas, aquelas que vivem naturalmente na casca da uva. Resultado: um vinho vivo, às vezes turvo, nunca idêntico de um ano para o outro.
O vinho orgânico (selo AB), por sua vez, garante que a uva é cultivada sem agrotóxicos. Mas a vinificação pode ser bem convencional: leveduras selecionadas, sulfito até 100 mg/l, filtração agressiva. É melhor que o vinho industrial, mas ainda não é « vinho natural ».
Aqui em casa, eu sirvo os dois. Mas minha preferência sempre vai para o natural: é o vinho que conta uma história, não uma receita.
As seis regiões que sempre tenho na adega
Beaujolais
Ah, o Beaujolais! Não aquele que vendem no supermercado com rótulo gritante. Não: um cru de verdade. Um Fleurie do Jean-Louis Dutraive (18 €), um Morgon do Marcel Lapierre (22 €). Gamay puro, gouleyant, frutado, que se bebe fresquinho, até no verão.
Gouleyant: quer dizer « que desliza sozinho ». Fácil de beber, leve, refrescante.
Loire
Minha região preferida para os brancos secos. Um Chenin de Saumur (domaine Les Roches, 14 €), um Vouvray sec do Huet (20 €). E para os tintos leves: um Cabernet franc de Chinon (domaine Bernard Baudry, 16 €). Perfeito no verão, servido levemente fresco, com uma charcutaria ou uma salada de lentilhas.
Jura
O Jura é a Suíça francesa do vinho. Uvas raras: Poulsard (um tinto bem pálido, quase rosé), Trousseau (mais estruturado), e o mítico Vin Jaune (a partir de 35 €, sim, é caro, mas é uma maravilha). Sempre tenho um Poulsard do Overnoy ou do Puffeney na carta. Entre 18 e 28 €.
Sudoeste
Aí você descobre uvas que não conhece: o Fer Servadou (tinto, especiado, meio selvagem), a Négrette (frutada, com nota de violeta). Experimente um Marcillac (domaine Laurens, 13 €) ou um Gaillac (domaine Plageoles, 15 €). Muda do Bordeaux, e sai três vezes mais barato.
Ardèche / Rhône
Os vins de pays do Ardèche são meus segredos mais bem guardados. Syrah puro (domaine Ozil, 12 €), Grenache macio (domaine Gramenon, 16 €). Têm o gosto do Sul — garrigue, tomilho, calor — sem o preço de um Châteauneuf-du-Pape.
Champagne de pequenos produtores
Esqueça as grandes marcas famosas. Eu só sirvo champagne de pequenos produtores: Bérêche, Vouette et Sorbée, Ulysse Collin. Entre 28 e 35 € a garrafa aqui em casa (e ainda 15 a 25 € na loja). É um champagne vivo, com personalidade, não açúcar.
Minhas quatro lojas de vinho preferidas em Paris (aquelas que os turistas não conhecem)
La Cave des Papilles — 14º arrondissement, rue Daguerre
Pequena, familiar, atendimento adorável. O dono é o Nicolas, e ele conhece cada garrafa da adega dele. Orçamento médio: 15 €. Sem clientela americana, sem rótulos em inglês. É o verdadeiro Paris de bairro.
Por que não é turística: a rue Daguerre é uma rua de feira onde os parisienses fazem compras no domingo de manhã. Os turistas nunca passam por lá.
Le Verre Volé — 10º arrondissement, rue de Lancry
É um bar-adega. Você pode comprar uma garrafa para levar ou beber ali mesmo com uma tábua de frios (conte uns 35 € para dois). Cyril Bordarier, o dono, é uma lenda do vinho natural em Paris. Sempre lotado, nunca esnobe.
Por que não é turístico: é um bistrô de bebedores de verdade. Os turistas vão uma vez, se sentem perdidos (a carta é escrita à mão, ninguém traduz), e voltam para Saint-Germain.
Vins des Pyrénées — Marais, rue Beautreillis
A menor carta de Paris: quinze vinhos, nem um a mais. Mas os quinze melhores. Preço: 12 a 30 €. Atendimento animado, indicação impecável. O dono se chama Christian, e ele te faz provar antes de comprar.
Por que não é turística: é uma adeguinha pequena, sem placa, numa rua residencial do Marais. Se você não sabe que ela existe, passa direto sem nem ver.
Le Baratin — Belleville, 20º arrondissement
Tecnicamente, é um restaurante (a chef, Raquel Carena, é uma instituição). Mas a seleção de vinhos é incrível. A Raquel compra direto dos produtores, muitas vezes em barris. Ninguém vai lá para comprar uma garrafa, vai para beber comendo uma língua de vitela ao molho gribiche.
Por que não é turístico: Belleville ainda é um Paris popular. Sem fachada instagramável, sem menu em inglês. Só cozinha e vinho, ponto final.
O conselho de ouro do Lulu
Quando você entrar numa loja de vinhos, nunca pergunte: « O que você me recomenda? »
Pergunte: « O que você está bebendo hoje? »
Isso muda tudo. O dono vai falar com o coração, não com a margem de lucro. E você vai sair com a joia do mês.
O vocabulário completo do bar (enfim, tudo que nunca te explicam)
| Expressão francesa | Tradução PT-BR | Registro | Explicação / Contexto |
|---|---|---|---|
| Prendre un pot | sair para tomar algo | Informal | A expressão mais comum para propor uma bebida entre amigos. « On prend un pot après le boulot ? » |
| Boire un coup | beber alguma coisa | Informal | Sinônimo de « prendre un pot ». « Viens boire un coup ! » |
| Le coup de l'étrier | a saideira | Idiomático | A última bebida antes de ir embora. Vem da época em que se bebia a cavalo antes de partir. |
| Prendre un demi | pedir um chope de 25 cl | Padrão | Um demi = 25 cl de chope (o tamanho padrão no balcão). |
| Prendre une pinte | pedir um chope de 50 cl | Padrão (recente) | 50 cl de chope. Ficou comum, mas não é o padrão histórico francês. |
| Un panaché | cerveja com limonada | Padrão | Metade cerveja, metade limonada. Pouco alcoólico, refrescante. Perfeito no verão. |
| Un monaco | panaché com xarope de groselha | Padrão | Panaché + xarope de granadina. Rosado, doce, muito popular entre crianças e adolescentes. |
| Un diabolo menthe / grenadine | limonada com xarope | Padrão | Limonada + xarope (sem álcool). Variantes: menta (verde), granadina (vermelho), morango (rosa). |
| Eau plate / gazeuse / du robinet | água sem gás / com gás / da torneira | Padrão | Na França, a água da torneira é potável em todo lugar. Você pode pedir « uma jarra de água »: é de graça. |
| Une carafe, s'il vous plaît | uma jarra de água, por favor | Padrão | Pedir água da torneira (grátis) é perfeitamente normal, até em restaurante estrelado. |
| La corbeille de pain | a cestinha de pão | Padrão | GRATUITA e à vontade na França. Você pode pedir mais sem constrangimento: « Vous pourriez remettre du pain ? » |
| Être pompette | estar alegre, levemente bêbado | Informal (carinhoso) | Um pouco bêbado, mas de forma alegre. « Após três taças, eu estava um pouco pompette. » |
| Être éméché | estar meio bêbado | Padrão | Um pouco mais que « pompette ». Ainda fofo. |
| Être bourré / rond / cuit / murgé | estar bêbado / chapado | Informal (forte) | Muito bêbado. « Rond » e « cuit » são os mais comuns. « Murgé » é gíria. |
| Avoir la gueule de bois | estar de ressaca | Padrão | A famosa ressaca. « J'ai trop bu hier, j'ai la gueule de bois. » |
| Faire la tournée du patron | o dono pagar uma rodada | Informal | O dono oferece uma bebida para todo o balcão. Bem raro hoje, mas ainda acontece. |
| L'apéro | o aperitivo | Padrão | A instituição sagrada francesa: entre 18h30 e 20h, antes do jantar. Muitas vezes ao ar livre, na varanda. |
| Trinquer | brindar | Padrão | Regra de ouro: olha-se nos olhos ao brindar. Senão, dizem, sete anos de sexo ruim. |
| Santé / Tchin-tchin / À la tienne | saúde / tim-tim / à tua | Padrão | As três formas de dizer « cheers ». « À la tienne » é mais pessoal (você tuteia). |
Bia no balcão: cena de sexta-feira à noite
Bia: Lulu, vamos sair para tomar algo?
Lulu: Ah, olha só, você já fala igual uma parisiense de verdade.
Bia: Obrigada! E depois, a gente pode beber a saideira?
Lulu: Espera, isso me faz rir. A saideira é a última bebida antes de ir embora. A gente acabou de chegar.
Bia: Ah, merda. Então tá, vou pedir um chope de 25 cl. Ou de 50?
Lulu: De 25 cl está perfeito. O de 50 é para os ingleses. A gente aqui gosta de beber várias vezes, não tudo de uma vez.
Bia: Combinado. E se eu ficar alegrinha?
Lulu: Nenhum problema. Alegrinha é fofo. Bêbada já é menos elegante.
Bia: E amanhã, se eu ficar de ressaca?
Lulu: Você vem comer aqui. Eu te faço ovos com maionese e um Perrier. Remédio infalível.
Bia: Tim-tim, então!
Lulu: Saúde. (Ele olha nos olhos dela enquanto brinda.) E nunca esqueça: a gente se olha. Senão, sete anos de sexo ruim.
Bia: Sério?
Lulu: Não, mas é a tradição.
Detalhes soltos que mudam tudo
O pão: na França, a cestinha de pão é gratuita e à vontade. Se ela esvaziar, você pode pedir: « Vous pourriez remettre du pain, s'il vous plaît ? » Nunca é falta de educação. Pelo contrário, é normal.
A água da torneira: pedir « uma jarra de água » é ecológico, econômico, e perfeitamente aceito, até em restaurante estrelado. A água da torneira é potável em toda a França (salvo indicação contrária, muito rara).
O aperitivo: não é só uma bebida antes do jantar. É um momento social sagrado, entre 18h30 e 20h, quando as pessoas se reúnem, conversam, resolvem os problemas do mundo. Toma-se uma bebida, muitas vezes ao ar livre, e belisca-se alguma coisa (azeitonas, batata chips, salame). O aperitivo pode durar uma hora. Ou três.
Brindar: quando você brinda, olha a pessoa nos olhos. É uma marca de respeito. Se não fizer isso, dizem (de brincadeira) que você vai ter sete anos de sexo ruim. Ninguém acredita nisso de verdade, mas todo mundo faz.
Para ir além
Quer mais crônicas de bistrô, de feira, do Paris não turístico? Vá ler a categoria Crônicas — Lulu, Lionel e Bia contam a França por dentro, aquela que os guias nunca mostram.
E se quiser fazer perguntas sobre vinho, vocabulário de bar, ou qualquer outra coisa, o Lionel te responde direto no curso online Nível Parisiense de Língua (NPDL Brasil) em npdlbr.com.br. Você também pode mandar uma mensagem privada para ele: ele adora falar de vinho (e de gramática, mas isso é outra história).
Vamos lá, saúde. E até logo mais no balcão.
— Lulu
