10 filmes imperdíveis sobre Paris — a seleção subjetiva de um cinéfilo

Existe o Paris que se visita com mapa, e existe o Paris que se habita com o cinema. Esta seleção, 10 filmes, subjetivos, diferentes em todos os aspectos, vai te dar um Paris para cada humor: poético, revoltado, nostálgico, romântico, gastronômico. Cada filme está ao seu alcance em streaming legal (Arte, MUBI, Canal+, Prime Vídeo, Cine Brasil…), com legendas em português. Prepare um chá, desligue o celular. Ou melhor, coloque no modo avião, né.
1. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Jean-Pierre Jeunet, 2001)
Ambiente: Montmartre, o café des Deux Moulins, a Butte, uma jovem garçonete tímida que decide fazer as pessoas felizes à distância. Paleta: verde garrafa, vermelho tomate, amarelo ocre.
Por que assistir: bom, é O filme que devolveu a Paris sua mitologia kitsch e afetuosa. Três gerações de turistas desfilaram pela rue Lepic por causa dele. Alguns puristas acharam meio fofinho demais, cartão-postal demais; mesmo assim, funciona. Pegadinha lusófona: o título brasileiro é « O Fabuloso Destino de Amélie Poulain »; na França, todo mundo fala só « Amélie ». Até no cartaz, aliás.
2. Os Incompreendidos (François Truffaut, 1959)

Ambiente: o primeiro filme de Antoine Doinel, garoto de 12 anos que foge da escola no 9º arrondissement e corre até o mar. A cena final — uma das mais famosas da história do cinema: Antoine corre, corre, corre na praia, e se vira para a câmera. Ainda não sabemos o que ele está pensando naquele momento. Paleta: preto e branco, cinza, cinzeiro.
Por que assistir — porque sem esse filme, não existe Nouvelle Vague, não existe cinema autoral, não existe a "câmera no ombro" moderna. Truffaut tinha 27 anos quando fez esse filme. Vinte e sete, imagina só. Ele tinha acabado de ser expulso da redação dos Cahiers du Cinéma por ser cruel demais com os cineastas franceses da época. Enfim, ele foi para trás da câmera, e o mundo do cinema nunca mais foi o mesmo.
3. Acossado (Jean-Luc Godard, 1960)

Ambiente: um pequeno vagabundo (Michel) rouba um carro, mata um policial, e se esconde em Paris com uma americana que vende jornais nos Champs-Élysées. Final — brutal, icônico.
Por que assistir: é o filme que inventou o corte seco (jump-cut): Godard, por falta de película (bom, é bem resumido isso, ele tinha sobretudo um editor que resmungava), cortou no meio das cenas. Isso horrorizou os críticos de 1960, depois toda a geração seguinte copiou. Bônus lusófono: a cena de cama entre Belmondo e Jean Seberg é um curso intensivo de flerte francês. Ele diz « Je t'aime », ela responde « What did you say? ». Ele repete. Ela pergunta de novo. Isso dura nove minutos. É insuportável e fascinante.
4. Meu Tio (Jacques Tati, 1967)

Ambiente: Monsieur Hulot, um cara alto e magro de capa de chuva bege e chapeuzinho, se perde numa Paris de vidro, aço e alumínio, uma Paris ultramoderna que Tati construiu de verdade nos estúdios de Vincennes (apelidado de "Tativille").
Por que assistir — é a comédia visual francesa suprema, quase sem diálogo. Cada plano é um quadro. Aliás, é preciso assistir duas vezes: a primeira para acompanhar Hulot, a segunda para observar o que acontece no fundo (onde se esconde 80% das piadas). Curiosidade: Tati se arruinou financeiramente filmando isso. O filme levou 20 anos para encontrar seu público. Hoje está no currículo de todas as escolas de cinema do mundo.
5. O Balão Vermelho (Albert Lamorisse, 1956)

Ambiente: um garotinho de 7 anos encontra um balão vermelho gigante numa ruela de Belleville. O balão o segue por toda parte, feito um cachorro. Curta-metragem mudo, ou quase, 34 minutos.
Por que assistir: Palma de Ouro de curta-metragem em Cannes 1956, Oscar 1957 de melhor roteiro original. Uma pequena obra-prima sem diálogo, perfeita para quem está começando com o francês — bom, já que não tem diálogo, tecnicamente isso ajuda. Para assistir com uma criança: é o curta mais bonito sobre Paris já filmado. Menção especial para as escadarias de Ménilmontant, filmadas como uma montanha mágica.
6. Piaf — Um Hino ao Amor (Olivier Dahan, 2007)

Ambiente: a vida de Édith Piaf, do bordel de Bellevue onde ela nasceu, aos cabarés de Pigalle, até o Carnegie Hall. Marion Cotillard, Oscar de melhor atriz em 2008 (uma primeira vez para um papel em língua francesa).
Por que assistir — pela voz. E pela Paris do pós-guerra: Pigalle, Ménilmontant, o Olympia. Cotillard aprendeu a cantar como Piaf. Nada fácil, já que Piaf cantava com uma técnica vocal que nenhum professor recomendaria hoje. Título brasileiro — « Piaf – Um Hino ao Amor ». Na França, dizem "La Môme", porque era o apelido de Édith quando cantava na rua.
7. O Ódio (Mathieu Kassovitz, 1995)

Ambiente: 24 horas na vida de Vinz, Hubert e Saïd, três jovens da periferia parisiense, no dia seguinte a um motim. Preto e branco. Rap, RER, tensão. « Jusqu'ici tout va bien… »
Por que assistir: o filme mais importante sobre a periferia francesa. Vinte e nove anos depois, não envelheceu nada. Kassovitz tinha 27 anos (mais um) quando o filmou, e o fez em reação à violência policial da época. Só que a época, bom, ela continua. Atenção ao nível: gíria das periferias muito densa, legendas em francês recomendadas mesmo para um B2. E mesmo assim, você vai perder algumas coisas. Prepare-se para assistir uma segunda vez.
8. Meia-Noite em Paris (Woody Allen, 2011)

Ambiente: Gil, um roteirista americano, está de férias em Paris com sua noiva. Toda noite à meia-noite, um velho Peugeot preto o pega para levá-lo aos anos 1920, para encontrar Hemingway, Fitzgerald, Picasso, Dalí…
Por que assistir: porque o verdadeiro protagonista é Paris. Woody Allen filma o Marais, Saint-Germain, a Ponte Alexandre III sob a chuva com um amor de turista esclarecido. Abertura (7 minutos de cartões-postais de Paris): cult. Alguns parisienses acharam meio cartão-postal demais, justamente — mesmo assim, dá vontade de pegar o avião na hora.
9. Ratatouille (Brad Bird, 2007)

Ambiente: Rémy, um jovem rato de papilas superdotadas, chega às cozinhas do restaurante Gusteau em Paris. Ele se esconde no cabelo de Alfredo, um jovem ajudante desajeitado, e se torna, de fato, o chef mais promissor da cidade.
Por que assistir: é o melhor filme da Pixar sobre culinária francesa, filmado com um raro amor pelos detalhes (os planos do Sena são desenhados a partir de fotos e esboços feitos no local). A cena final do crítico Anton Ego provando a ratatouille e reencontrando sua infância = cinema puro. Aliás, o design do Ego é inspirado em Louis Jouvet. Os animadores passaram meses estudando as brigadas de Paul Bocuse para animar os gestos dos cozinheiros.
10. Paris, Eu Te Amo (coletivo, 2006)

Ambiente: 20 curtas-metragens, 22 diretores, um por arrondissement (ou quase). Irmãos Coen, Alfonso Cuarón, Alexander Payne, Olivier Assayas, Walter Salles… Vinte histórias de amor em Paris, do 1º ao 20º arrondissement.
Por que assistir: porque é O cartão-postal polifônico da cidade. Alguns curtas são geniais (o de Alexander Payne, em que uma turista americana narra sua viagem num francês capenga, obra-prima), outros nem tanto. Um dos curtas é assinado por Walter Salles (o brasileiro, aquele de Central do Brasil) — ele filma uma jovem mãe de origem brasileira que atravessa Paris para cuidar dos filhos de outra família. Comovente. E o francês da protagonista soa exatamente como o de uma imigrante brasileira que ainda está aprendendo.
Três bônus para mencionar (porque 10 é pouco)
- Charada (Stanley Donen, 1963): Audrey Hepburn e Cary Grant num thriller romântico em Paris. Clássico glamouroso. Os diálogos são em inglês, mas Paris é filmada como uma aquarela.
- Diva (Jean-Jacques Beineix, 1981) — o filme mais estético dos anos 80, cinema do visual, fitas cassete, Metrô Miromesnil. Beineix filma Paris como uma HQ futurista... e mesmo assim tudo é real.
- Bandas Originais (Cédric Klapisch, 2020) — três dançarinos contemporâneos numa Paris pós-Covid. Bonito, jovem, dançante. Klapisch já tinha filmado Paris em O Espírito da Coisa e Cada Um Procura Seu Gato, mas aqui ele faz a cidade dançar.
Onde assistir a partir do Brasil?
- Arte (arte.tv): Os Incompreendidos, Acossado, Meu Tio voltam regularmente. Catálogo mutável, mas sempre de qualidade.
- MUBI: cinemateca paga (~30 R$/mês) que roda ciclos de Truffaut, Godard, Varda. Um filme novo por dia, um filme que sai. Frustrante e genial ao mesmo tempo.
- Prime Vídeo / Netflix Brasil: Amélie, O Ódio, Meia-Noite em Paris, Ratatouille (frequentemente no catálogo). Catálogo que muda, então confira antes.
- Cine Brasil: a pequena plataforma franco-brasileira que exibe uma seleção francesa com legendas em PT. Menos conhecida, mas séria.
- Culturethèque via a Aliança Francesa: acesso legal e gratuito a mais de 60 filmes franceses a partir do Brasil, com seu cartão de sócio. Frequentemente esquecido, sempre útil.
O que vale lembrar
- Amélie é a porta de entrada para o grande público. Comece por aí se você está começando. Ou se você só quer uma Paris bem suave.
- Os Incompreendidos = o filme para entender por que o cinema francês mudou o mundo. Ponto final. Não é negociável.
- O Ódio = o filme para entender a Paris que não mostram para os turistas. E que existe, mesmo assim, há 50 anos.
- Ratatouille = paradoxalmente, uma das Paris mais bonitas já filmadas — pela Pixar. Prova de que, às vezes, a animação faz melhor que o real.
- Paris, Eu Te Amo = quando você quer 20 mini-histórias numa noite só, com um curta de Walter Salles. Desigual, mas tocante.
Bom filme. E não esqueça: quando assistir a um filme francês, ative as legendas em francês, não em português. Você vai progredir dez vezes mais rápido. Prometo.
*— Lionel Philippe · também conhecido como « Sr. Bonjour-Merci »***

